Protestos na América Latina acirram embates contra venezuelanos

“Eu saí da Venezuela exatamente no dia 27 de julho de 2018. Bem antes de ter imigrado, eu já conhecia histórias sobre um contexto de xenofobia e preconceito contra os venezuelanos por amigos e familiares que saíram da Venezuela entre 2015 e 2017”, conta María José Ocando.

Aos 28 anos, María deixou seu país de origem em busca de melhores condições de vida. De acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA), além dela, pelo menos outros 4 milhões de venezuelanos (mais de 13% da população total da Venezuela) deixaram o país desde 2015.

Para a OEA, a crise político-social resultou na segunda maior movimentação de refugiados e imigrantes do mundo, seguida somente da Síria. Na Venezuela de Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez, a inflação chegou a oito dígitos, o índice de homicídios elevou-se ao mais alto da América, a fome alastrou-se e são noticiadas violações sistemáticas contra direitos humanos.

A região que mais tem recebido aqueles que deixaram a Venezuela é a América Latina. Colômbia, Peru, Chile e Equador, por exemplo, abrigam 65% dos venezuelanos que imigraram. Na Colômbia, a maior receptora desse fluxo, são 1,3 milhões de pessoas até hoje, e no Peru, o segundo maior, são mais de 768 mil.

Trata-se um processo importante em uma região tradicionalmente associada à emigração, ou seja, à saída de pessoas de determinado território. Agora recebendo aqueles que deixaram seu país (assim como foi em 2010 e 2012 com a imigração haitiana) a América Latina sente o impacto de milhões de deslocamentos dentro de seu território.

Hostilidade contra venezuelanos

Segundo a organização não governamental Oxfam, na Colômbia, no Equador e no Peru, países que mais recebem os imigrantes e refugiados venezuelanos, é possível observar um discurso antimigratório cada vez mais marcado por “sentimentos xenófobos e discriminatórios”. No relatório “Sí, Pero no Aquí” (ou “Sim, mas não aqui”, em português), de outubro desse ano, a ONG alerta para uma postura ambivalente: dentre os entrevistados, ao mesmo tempo muitos que reconhecem os motivos pelos quais seus vizinhos tiveram que deixar a Venezuela, eles também deixam clara sua defesa por políticas de migração mais estritas.

A ONG não é a única a alertar a sobre as hostilidades contra venezuelanos na região. Em relatório de setembro de 2018, também fala em xenofobia e discriminação a ONG Human Rights Watch (HRW). A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, órgão regional de proteção aos direitos humanos, se posicionou no mesmo sentido com uma resolução em março de 2018.

Protestos acirram tensões

No início de outubro, o Peru dissolvia seu Congresso, e começavam protestos no Equador contra o fim dos subsídios ao combustível. Pouco tempo depois, chilenos confrontavam a polícia em choques violentos, e não tardou até que sindicalistas convocassem uma greve geral na Colombia.

Analistas discutem o que essa “onda de protestos” (que também ocorreram na Bolívia e na Argentina) têm em comum e em que guardam diferenças.

Algo que os une é o tratamento em relação aos imigrantes e refugiados venezuelanos. Chamados a voltarem a seu país de origem e hostilizados nas ruas e nas redes sociais (em diferentes graus a depender do país), eles vêm sendo associados à violência e ao vandalismo, a saques e a roubos no contexto dos protestos.

Ao comentar sobre essa associação automática entre venezuelanos e delitos, María José Ocando criticou: “nossa nacionalidade não nos define como ser humano. Um venezuelano ladrão não é o mesmo que um venezuelano trabalhador”.

Para Daniel Portillo, fotógrafo de Maracaibo (Venezuela) que vive há alguns anos na capital chilena de Santiago, “não é que todos os venezuelanos que estão no Chile sejam bons, mas eu acredito que ser bom ou mau não depende da nacionalidade“. E completa: “a maioria trabalha duro e está crescendo”.

Ataques e fake news

Na Colômbia, a hashtag #venecos foi trending topic em 22 de novembro, apenas um dia depois de iniciada a greve geral no país. Segundo a Academia Venezuelana da Língua, “veneco” é uma forma depreciativa de se referir a venezuelanos que estão na Colômbia. A expressão, que vem sendo usada de maneira ofensiva para se referir aos imigrantes e refugiados nos países de língua hispânica pela América Latina, viralizou ao culpabilizar ou difamar imigrantes e refugiados durante os protestos.

Os tweets que vinham associados ao termo estavam muito bem divididos entre aqueles que o utilizavam de forma ofensiva, e quem (venezuelanos ou colombianos), apontavam para seu uso problemático. “Eu sou venezuelana, estrangeira radicada em Medellín, Colombia. Não é porque deixei meu país que devem me chamar de veneca”, explica María José.

Notícias falsas também se tornaram comuns. No final de outubro, viralizou no Chile, por exemplo, a notícia de que 60 venezuelanos haviam sido detidos pela polícia durante confusão em um protesto. De acordo com as informações disponíveis, seis deles seriam funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência da Venezuela (SEBIN) e levavam consigo pistolas e credenciais diplomáticas.

A história era falsa e se referia a uma operação policial de 2018, em Honduras, como demonstrou o portal argentino de checagem de fatos, Chequeado. Apesar disso, foram comuns comentários no Twitter como “outra prova de que Nicolás Maduro exporta terrorismo aos países vizinhos” e “todos deveriam ser considerados terroristas!” mesmo depois de desmentida a notícia.

Em Quito, no Equador, a Ministra do Interior, María Paula Romo, criou alarde ao publicar em seu Twitter imagens de uma operação policial; com elas, um texto que dizia: “Dezessete detidos no aeroporto de Quito essa manhã. A maioria deles, venezuelanos. Em seu poder, informação sobre o trajeto do Presidente e do Vice-presidente”.

A alegação era de que essas pessoas pretendiam atentar contra a caravana presidencial. De acordo com o jornal RT Actualidades, no entanto, descobriu-se que eram, na verdade, 17 venezuelanos, um equatoriano e um cubano – 19 pessoas, motoristas de transporte privado por aplicativo que estavam nos arredores do aeroporto. Quinze dos 17 venezuelanos foram inocentados, e o presidente da Associação de Venezuelanos do Equador, Eduardo Febres Cordero, exigiu desculpas públicas.

“Então vocês se deram conta que quando pedíamos que não os deixassem entrar facilmente e que exigissem um visto, era por situações como essa? Já se deram conta que não era ‘xenofobia’?”, comentou um seguidor.

O tweet (publicado em um momento de tensão, apenas três dias após a transferência da sede do governo de Quito a Guayaquil), ecoou sobretudo entre aqueles que se opõem à imigração venezuelana, um padrão comum que se repete pela região.

América Latina dentro da curva

Os episódios de discriminação contra imigrantes e refugiados venezuelanos não são uma característica exclusiva da América Latina. “O crescimento da xenofobia é algo que marca de certa forma a realidade global, principalmente a partir do momento em que você tem uma apropriação de um discurso de segregação, de tensão em relação a grupos e um reforço de um nacionalismo de tipo excludente [a nível mundial]”, explica João Carlos Jarochinski, professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e pesquisador sobre imigrações e fronteiras. Segundo ele, os venezuelanos estão no olho do furacão, porque são o grande grupo que circula pela região no momento.

Para explicar o problema, no entanto, é preciso pensar além de termos quantitativos. Os xingamentos muitas vezes dirigidos aos grupos venezuelanos estão, na verdade, diretamente relacionados ao regime que impera há décadas na Venezuela. Taxados de chavistas, maduristas ou comunistas, os imigrantes são forçados para dentro de categorias entendidas como a encarnação do mal.

Existe aí uma confusão que não permite distinguir quem são os nacionais (ou seja, os venezuelanos) e o que é o Estado. O povo da Venezuela não é um projeto pensado por Chávez, por Maduro ou mesmo por Guaidó. São pessoas de origens e histórias múltiplas, ricas em cultura e diversidade, um corpo social com concordâncias e discordâncias, assim como qualquer outro país do mundo.

“Quando você acaba associando o Estado venezuelano com os próprios venezuelanos, você também  acaba criando uma tensão maior”, alerta o professor.

Essa falta de distinção entre as pessoas e o Estado é aproveitada politicamente dentro dos países da região, algo que não é novo. Basta lembrar das eleições presidenciais brasileiras de 2014, quando frases de efeito como “volta para Venezuela!”, ou “volta para Cuba!”, junto de cantos como “a nossa bandeira jamais será vermelha”, eram utilizados para criticar uma das candidatas considerada mais à esquerda, Dilma Rousseff (PT).

Nesse momento, a situação não foi diferente. Lenín Moreno, presidente do Equador, chegou a afirmar em outubro que os protestos que eclodiam no país faziam parte de um “plano sistemático” seu ex-aliado político, Rafael Corrêa, e de Nicolás Maduro para derrubá-lo.

Disputaram também Caracas e Lima, em setembro. Depois de uma série de graves relatos de xenofobia contra imigrantes e refugiados venezuelanos no Peru, Nicolás Maduro acusou o governo de Martín Vizcarra de promover e permitir atos de segregação e xenofobia, e de violar e descumprir com responsabilidades internacionais.

“A Venezuela acaba tendo um peso muito maior dentro dessa retórica de construção de narrativas na política interna dos Estados”, esclarece o professor Jarochinski.

Considerando a projeção da ACNUR de que a imigração venezuelana superará a síria em 2020, é preciso encarar a situação com a gravidade devida. A expectativa de 6,4 milhões de imigrantes até o final do próximo ano aponta para uma série de dificuldades que deverão ser enfrentadas sem estigmas e sem um discurso nacionalista excludente.

Vote AI-5

“Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5”.

Essa é a declaração dada pelo deputado federal mais votado da história democrática brasileira, o (por enquanto) pesselista Eduardo Bolsonaro. A frase foi dita pelo parlamentar em entrevista transmitida pelo canal de Youtube da jornalista Leda Nagle no dia 31 de outubro, às 10h da manhã.

A defesa à uma ação institucional antidemocrática, inconstitucional, autoritária e obscurantista recebeu respostas em pouco tempo e repercutiu entre políticos, um jurista da Alta Corte, sociedade civil, ONGs, intelectuais e outros grupos.

Apesar das reações, o 03 da República, fritador de hambúrguer de Maine e recém líder do parquinho da Câmara não recuou. O pitbull do Planalto latiu nas redes sociais e, depois, nos brindou com uma desculpa pública que nada mais era que um recado a seus eleitores.

E me parece que esse é um dos fatores mais importantes da história. Ele diz duas coisas muito importantes em seu breve discurso.

Com a voz polida, enuncia o primeiro ponto: “nós, parlamentares, temos garantido na Constituição o direito à imunidade parlamentar por opiniões, palavras e votos. É imunidade não para roubar. É imunidade para falar”.

Traduzo: o roubo – ou seja, o que os Outros fizeram – é inaceitável. O que Eduardo fez na ocasião foi meramente usufruir do seu direito à liberdade de expressão, o que fez, ainda por cima, com tal maturidade que chegou a pedir desculpas caso tenha ofendido alguém com seu ponto de vista. A tradução também é possível pelo mote: “liberdade de expressão para mim e meus amigos acima de tudo, minha inconsequência acima de todos”.

Eduardo continua a frase e diz: “assim você conhece melhor o seu representante e vai ter a oportunidade de daqui a 4 anos de votar nele – ou de não votar nele. Assim é a nossa democracia”. O que faz dessa vez é apostar nas cartas do próprio baralho: take me as I am or watch me as I go, “Eduardo Bolsonaro, ame-o ou deixe-o”. Fala olho no olho do eleitor que ele não é como os outros políticos que se escondem por debaixo de uma teia de desonestidades.

O pitbull encrenqueiro se forja na figura do político que não tem medo de dizer o que pensa e aposta nisso para seu sucesso na política. Nos restará saber, primeiro, se a aposta está certa. Se estiver, a questão será compreender se o problema está na imagem que o filho do presidente cria de si ou se está no fato de que tantos brasileiros confiam nessa figura.

Crise no PSL

Nos últimos dias, muito tem se falado sobre uma crise no PSL, o Partido Social Liberal. O racha entre a ala bolsonarista, liderada pelo presidente do Brasil, e a bivarista, do presidente do partido, Luciano Bivar, criou um clima generalizado de pega pra capar. Insultos públicos, insultos vazados, ameaças em redes sociais e conversas sobre troca de partido extrapolaram os bastidores e pintam o cenário de crise no Partido. Entenda.

Tudo começou quando, ainda em 2017, Jair Bolsonaro sondava partidos que topassem lançar sua campanha à presidência para ano seguinte – já que havia sido recusado pelo seu. Até então, o capitão reformado fazia parte do PSC (Partido Social Cristão), legenda na qual ingressou em março de 2016 depois de deixar o PP (Partido Progressista), em uma longa trajetória de troca-troca partidário.

Antes do namoro com o PSL, Bolsonaro flertou seriamente com o PEN (Partido Ecológico Nacional, atual Patriota) em 2017. Embora tenha assinado em novembro daquele ano uma filiação pré-datada com o Partido, as negociações ruíram e acabaram, como disse Bolsonaro, em “um casamento que não deu certo”.

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Ao lado do presidente do Patriota, Adilson Barroso, Bolsonaro fez foto com o 51, número da legenda. Foto: divulgação/Patriota.

O presidente do Patriota não ficou calado. Adilson Barroso, que ainda está à frente do partido, desabafou à época: “fiz das tripas coração para tê-lo com a gente, mudei o nome do partido, mexi no nosso estatuto, dei mais de 20 diretórios para o grupo dele. Mas você não pode ser convidado para entrar em uma casa e depois querer tomar ela inteira para você, expulsando seus moradores originais”.

Gustavo Bebianno foi chave para o fim das negociações com o Patriota. Bolsonaro e Bebianno defendiam que o advogado assumisse a presidência da sigla, mas Adilson Barroso não topou. “Se eles querem um partido, que fundem um ou tomem de outro”, afirmou.

Com Luciano Bivar a história foi diferente. O presidente do PSL aceitou transferir a liderança do partido a Bebianno que, ao final das eleições, retornaria o posto a Bivar. Assim, em janeiro de 2018, Bolsonaro assinou seu compromisso com Luciano e migrou para o PSL em março, durante a janela partidária, período para que candidatos podem mudar de partido político sem perda de mandato. Horas depois de eleito Jair Bolsonaro, Bebianno devolveu o posto a Bivar.

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O sorriso do primeiro encontro: Jair Bolsonaro e Luciano Bivar nas conversas iniciais sobre a entrada do militar no partido. Foto: divulgação/PSL

A casa não durou muito tempo em pé. Investigações acerca do esquema de candidaturas de laranjas no PSL reveladas pela Folha de S. Paulo acabaram com a relação de Bolsonaro e Bebianno. Carlos Bolsonaro colocou lenha na fogueira e conversas vazadas entre o presidente e o ex-ministro foram a gota final. Bebianno foi o primeiro ministro a ser exonerado após exatos 49 dias de governo Bolsonaro (ou 50, se contarmos que a saída do ex-ministro foi publicada no Diário Oficial da União um dia depois do anúncio pelo porta-voz da presidência).

Mas Bivar não saiu impune. A sequência de matérias publicadas pela Folha também afetou a imagem do presidente do PSL que é investigado por liderar o esquema de candidaturas laranjas pelo partido em Pernambuco.

Charge: Iotti

As tensões entre Bolsonaro e Luciano Bivar vieram à público com uma declaração de Bolsonaro a um apoiador, no dia 8 de outubro. Pediu para que não divulgasse o vídeo no qual enquadra o presidente e clama: “Eu, Bolsonaro e Bivar. Juntos por um novo Recife. Aê!”. O presidente, ao fazer o pedido, explica: “o cara [Luciano Bivar] está queimado pra caramba”, “vai queimar meu filme também”. E completa: “esquece esse cara. Esquece o partido”.

O presidente do PSL não deixou o assunto de lado. Disse à jornalista Andréa Sadi no dia 9 de outubro que “a fala dele [Bolsonaro] foi terminal, ele já está afastado. Não disse para esquecer o partido? Está esquecido”.

O caldo continuou entornando quando, dois dias depois, Bolsonaro apresentou por meio de seus advogados um pedido de abertura de todas as contas do PSL nos últimos cinco anos, alegando falta de transparência e precariedade nas contas (vale relembrar aqui que o presidente ingressou no partido só em 2018). Subscreveram o pedido 21 parlamentares da sigla, incluindo seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal, Eduardo Bolsonaro. De acordo com o G1, “a auditoria pode ser um caminho para alegação de justa causa para que os parlamentares se desfiliem da legenda sem o risco de perder os cargos”.

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Charge: Cazo

Com o circo já armado, a confusão chegou à Câmara. O presidente Bolsonaro e seu filho Eduardo partiram em ofensiva para retirar Delegado Waldir (PSL-GO), aliado a Bivar, do comando do partido na Casa.

“Falta uma assinatura para a gente tirar o líder”, disse Bolsonaro em áudio vazado na manhã do dia 16 de outubro. Ele se referia a uma lista com assinaturas de parlamentares pesselistas que seria usada para retirar de Waldir de seu posto. No dia seguinte, foi a vez do deputado Waldir: “eu vou implodir o presidente”, disse em áudio vazado por Daniel Silveira (PSL-RJ), da ala bolsonarista – e depois voltou atrás, que nem “mulher traída”.

Depois de uma guerra de listas disputando a permanência de Waldir e a entrada de Eduardo Bolsonaro para comando da legenda na Câmara, o grupo bivarista foi vitorioso e o Delegado Waldir garantiu seu posto.

Se engana quem acredita que tudo acabou em pizza. Do lado de Jair Bolsonaro, a retaliação foi contra Joice Hasselmann que foi retirada de sua posição de líder do PSL no Congresso. Do outro lado, Bia Kicis, Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro perderam, por ordem de Luciano Bivar, seus postos regionais no comando do PSL. Veja mais aqui.

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Foto: reprodução

Mas por que tanta briga? A tensão que existe entre bivaristas e bolsonaristas se dá como em qualquer partido composto por grupos que pensam e agem de maneiras diferentes, até antagônicas. O que acirra a briga entre eles – e isso é o que importa – é o controle do PSL.

A disputa é pelo ouro. O PSL foi criado por Luciano Bivar em meados dos anos 1990. Em 2018, quando foi alugado para Jair Bolsonaro, a legenda conheceu proporções nunca imaginadas para um nanico daquele. O PSL tornou-se o segundo maior partido na Câmara dos Deputados com 52 representantes atrás apenas do Partido dos Trabalhadores (PT), com 56 (em 2014, a bancada do PSL era composta por um deputado, Dr. Grilo, por Minas Gerais).

São mais de R$200 milhões do fundo eleitoral que deverão ir para o partido no ano que vem, aponta o jornalista Gerson Camarotti. Isso, sem contar com o tempo no horário eleitoral do qual a legenda dispõe, uma parcela robusta considerando o tamanho que o partido tem atualmente.

A disputa, portanto, é objetiva. São cargos, poder, tempo e dinheiro em jogo. Como comentou um colega: Bolsonaro tratou o partido como seu, Bivar estrilou e Bolsonaro gritou truco. Resta saber qual será a saída adotada tanto por bolsonaristas, que precisam de uma estrutura partidária sólida para seguirem atuando como desejam, quanto por bivaristas, que não querem abrir mão de um partido que acaba de conhecer o poder.

6 livros, 6 meses

Em 2016, fiz um post com os 12 livros que eu havia lido ao longo do ano. Desde então, quis fazer o mesmo em 2017 e em 2018, mas deixei a ideia de lado. Para não acontecer a mesma coisa esse ano, decidi fazer diferente. Trago, então, os seis livros que li ao longo do semestre, de janeiro a junho. Confesso que quase não há literatura e, por isso, adicionei à lista um título que li em novembro passado.

Para saber mais sobre o livro e onde o encontrar, clique sobre a imagem.

A AMIGA GENIAL

Sou muito grata por ter encontrado Scholastique e “Baratas” em meu caminho. Acho que o trabalho de Mukassonga deveria ser leitura obrigatória (não necessariamente na escola ou na faculdade, mas na vida). No livro, a autora narra com imensa franqueza a sua história desde de criança, em Cyanika (Ruanda), até vida adulta, onde, na França, as ausências e a dor de um massacre que se iniciou muito antes de 1994 não se calam.

Seus relatos poderiam ser obra de algum autor distópico deste século ou do passado. Infelizmente (e essa palavra certamente não basta) não são. A dor do livro está na inexorável e inescapável verdade que traz ao leitor. Ler “Baratas” é um dever para consigo mesmo e em relação a todos os outros seres humanos que habitam ou já habitaram esta terra.

“É somente lá, junto das ossadas, que me sinto em casa. Ao lado dos mortos estou em segurança”

A AMIGA GENIAL (1)

A edição de “Mulheres”, de Eduardo Galeano, foi publicada em português pela LPM Pocket. No começo do ano, quando fui atrás do livro, não havia mais exemplares disponíveis (agora, vejo que o livro está disponível de novo). Decidi ler em espanhol, mas acabei com uma versão reduzida de 59 páginas que encontrei em um sebo (Alianza Cien, 1995).

Confesso que tinha mais expectativas. Talvez por ter lido apenas alguns dos capítulos ao invés da edição completa, talvez porque esse seja um livro de cabeceira (para se ler uma história ou outra antes de dormir e terminar o dia bem) e não para o dia a dia, eu não criei laços com a obra. Há, sim, contos lindos e eu não deixaria de recomendar o livro, mas considerando que sempre temos uma pilha de coisas interessantes para ler, eu deixaria essa compra (pelo menos essa versão de poucas páginas) para outro dia.

“La libertad ofende. Mujer de ojos brillantes, Isadora es enemiga declarada de la escuela, el matrimonio, la danza clásica y de todo que enjaule al viento. Ella baila porque bailando goza, y baila lo que quiere, cuando quiere y como quiere, y las orquestas callan ante la música que nace de su cuerpo”

A AMIGA GENIAL (3)

A série “Feminismos Plurais” fez um sucesso estrondoso. Demorei para ler alguma das seis publicações, e, chegado janeiro, decidi ler sobre encarceramento. Foi uma ótima escolha. O livro é sério, tem referências importantes, mas sem parecer um artigo acadêmico difícil e moroso. A leitura ágil sem dúvidas é um ponto positivo do livro, embora eu tenha sentido que essa agilidade por vezes faça com que o pensamento de Juliana Borges vá mais rápido que as palavras, em raciocínios que o leitor não acompanha.

“O que é encarceramento em massa?” é uma boa forma de se colocar alguém em contato com o tema de forma suficientemente aprofundada e a partir de uma perspectiva interseccional.

“Como aponta Davis, a relação estabelecida é da insistência no cárcere como justiça. Isto tem se mostrado absolutamente equivocado. As ligações têm sido, historicamente, entre punição e raça, entre gênero e castigo, entre classe e criminalização e punição. Ou seja, é a perspectiva racializada que define quem será ou não punido”

A AMIGA GENIAL (4)

Há um ou dois anos ouvi falar de Audre Lorde. Tirando o que conheço de Fernando Pessoa e seus heterônimos, nunca me interessei por poesia. Lorde, que é poeta, portanto, esteve sempre a alguns braços de distância. Um belo erro… Acabei lendo Audre por causa de um trabalho da faculdade. Entre as várias obras de outros autores que eu poderia ter escolhido, decidi que era hora de me sentar com ela. Confesso que li pouco (quase nada) de sua poesia. Acabei ficando com a prosa em um livro que reúne diversos escritos e discursos seus ao longo dos anos 1970, 1980 e 1990. 

Eu não imaginava, mas “Sister Outsider” seria muito importante para mim. Lorde fala essencialmente sobre a libertação humana, sobre falas e silêncios, sobre o outro e a diferença, sobre sua difícil posição enquanto mulher, negra, lésbica, mãe, poeta – tudo, para mim, de maneira inesquecível. 

Lorde demonstra como sua posicionalidade não é negociada e que as partes de sua identidade não podem ser dissociadas. Sem que saiba, dialoga com críticos atuais das  “políticas identitárias” que insistem em compreedê-la repetindo as mesmas lógicas que Audre já criticava nos anos 1960.

A poeta respondeu muitas questões que eu tinha e tantas outras que eu não imaginava ter. Conversou comigo e me presenteou com suas palavras – e, para mim, nada mais apaixonante do que um belo uso de palavras. Aproveito para recomendar este podcast (em inglês) sobre a autora e sua trajetória.

“The fact that we are here and that I speak these words is an attempt to break that silence and bridge some of those differences between us, for it is not difference which immobilizes us, but silence. And there are so many silences to be broken.”

A AMIGA GENIAL

O livro é imperdível. Confesso que não li tooodas as páginas (entre não ler e ler a maior parte, fico com a segunda opção), mas posso afirmar mesmo assim que essa é uma leitura e tanto. Não é fácil e rápida, muito menos banal. Pelo contrário, Origens exige um tempo e uma dedicação que uma leitura no ônibus, por exemplo, não garantem.

Minhas partes favoritas foram a I (“Antissemitismo”e a III (“Totalitarismo”). Para quem se interessa pela história do povo judeu (não tanto no sentido religioso, mas no político e histórico) a primeira parte traz insights únicos. Quanto à segunda, a atualidade do texto de Arendt faz com que essa seja uma leitura imprescindível para todos aqueles que vivem o século XXI.

A AMIGA GENIAL (2)

“Necropolítica” é um curto ensaio do intelectual camaronês Achille Mbembe. Nele, Mbembe fala sobre como a expressão da soberania não se reflete na capacidade de se ter o domínio último dentro de um território, por exemplo, mas no poder em se definir quem há de viver e quem há de morrer. 

Gostaria muito de ter lido o ensaio com outra(s) pessoa(s) para ter com quem discutir passagens, tirar dúvidas e localizar melhor algumas das ideias de Mbembe. A vantagem de ser um texto curto é que certamente voltarei a lê-lo outra vezes – quem sabe, em alguma delas, acompanhada.

“Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é “a condição para a aceitabilidade do fazer morrer”