Guerra Civil Síria

“O que começou como uma revolta contra o presidente sírio Bashar al-Assad há cinco anos, hoje se tornou uma guerra civil em grande escala, deixando mais de 250 mil pessoas mortas, devastando o país e envolvendo potências globais” – BBC News

Antecedentes

Em 2011, uma onda de revoltas tomou conta do mundo árabe e do norte da África. Turbulenta e emblemática, a Primavera Árabe não teve efeitos apenas nos países em que ocorreu: sua influência sobre o povo sírio foi de cabal importância.

Em março de 2011, uma série de protestos pacíficos em favor da democracia tomaram as ruas da Síria. O presidente Bashar al-Assad reprimiu-as com brutal e desproporcional força: quando não matava, prendia os manifestantes. Em resposta à truculência dos militares, manifestantes foram às ruas com maior peso e força contra o governo do presidente.

As insurgências tornavam-se cada vez mais violentas. Além dos rebeldes, militares do exército nacional desertam para poder apoiá-los. Tinha início a Guerra Civil Síria.

O conflito já nascia com uma multiplicidade de atores. Para além destes rebeldes, lutavam também o Jabhat al-Nusra (braço da al-Qaeda na Síria, criado em 2012) e os curdos, no norte do país. Curioso notar que todos eram – e ainda são – inimigos.

Ao contrário do que parece, a repressão de al-Assad foi, no entanto, apenas a gota final sobre um copo já prestes a transbordar. A população já sofria com a falta de liberdades, o constante estado de repressão, o desemprego e a corrupção generalizada, fatores anteriores ao governo de al-Hassad filho.

Envolvimento estrangeiro

Antes da entrada do Ocidente na guerra, países do Oriente Médio já se posicionavam sobre o conflito. Xiitas, o Irã, já aliado sírio, e o grupo libanês Hezbollah colocavam-se ao lado do governo. Em oposição, de tradição sunita, Arábia Saudita, Turquia e Qatar auxiliavam os rebeldes. Hoje, Irã e Arábia Saudita são as potências da região com maior influência sobre os campos de batalha.

A Guerra Civil Síria chamou a atenção do resto do mundo em 2013 quando, em agosto, um ataque ordenado por al-Assad matou centenas de pessoas com armas químicas nos subúrbios de Damasco. Obama, em relação ao ocorrido, se posiciona: “É do interesse da Segurança Nacional dos Estados Unidos responder o governo Assad pelo uso de armas químicas”. Apenas por manobra russa que não ocorre o primeiro ataque estadunidense na Síria durante o conflito.

O conflito extrapolou as fronteiras do Oriente Médio definitivamente quando o Ocidente conheceu sua abrangência. Em fevereiro de 2014, dissidentes do Jubhat al-Nusra juntam-se ao Estado Islâmico do Iraque, formando o que conhecemos hoje como Estado Islâmico do Iraque e Síria. Para além de sua ação extremamente violenta, o Estado Islâmico não se limitava a um domínio regional: muito pelo contrário, expandia-se vigorosamente sobre território sírio e iraquiano, atraindo seguidores mundialmente.

ISIS na Síria
Mapa produzido pela BBC, indicando as áreas de controle do Estado Islâmico (IS)

Washington, em setembro de 2014, iniciou ataques aéreos contra o ISIS e o governo de Bashar al-Assad, alegando tratar-se de questão de segurança nacional. Também desenvolveu um programa de treinamento e armamento de rebeldes contrários ao Estado Islâmico, em dupla ofensiva. No curso dos eventos, ficaram os EUA com uma importante e difícil questão de se definir: qual seria seu maior inimigo, al-Assad ou o Estado Islâmico?

Já no segundo semestre de 2015, a Turquia realizou ataques contra os curdos ao norte do Iraque e da Síria. Um mês depois, é a vez de Moscou interferir na Guerra. Putin, alegando bombear o inimigo internacional Estado Islâmico, atacou, na verdade, os rebeldes anti-al-Assad. Mas, afinal, por que Putin se colocaria ao lado de al-Assad?

Síria e Rússia são aliados desde os anos 1960, com Hazer al-Assad, pai de Bashar. A Moscou não interessa nem um pouco perder seu único aliado no Oriente Médio. Trata-se de uma aliança-chave na região. Putin também busca impedir entrada e domínio dos Estados Unidos sobre a Síria: uma nação a mais sob influência direta dos EUA reduziria ainda mais o espaço para a expansão político-econômica russa. Ainda nesse sentido, sua participação na guerra faz parte de uma demonstração de poderio bélico.

Em meio a esta complexa dinâmica, ataques dos grupos extremistas em solo europeu reforçaram seu poder, demonstrando sua ameaça para além de limites locais. O maior expoente é o Estado Islâmico, organização que tem tirado o sono das nações ocidentais. Não é à toa: além de realizar ataques, influencia tantos outros ao redor do mundo.

Antes de citar atentados realizados na Europa é importante destacar que a tensão entre Ocidente e Oriente Médio não é nova. Não é surpreendente, portanto, que pesquisa de 2013, publicada pela The Economist, já indicasse que muitos dos países europeus acreditavam que o islamismo não era compatível com o Ocidente. A questão, contudo, não se restringia ao campo das opiniões. Para além de polêmicas, de 2001 a 2016, ocorreram 45 grandes ataques na Europa Ocidental, em 10 diferentes países.

Em 13 de novembro de 2015, na capital da França, o Estado Islâmico alegou autoria sobre o ataque mais letal na Europa desde 2004. Para criar um pânico coletivo, os ataques foram realizados em diferentes localidades: a casa de shows Bataclan, durante uma apresentação;  nos redores do restaurante Le Petit Cambodge, Bar Carillon e da Rua La Fontaine Au Roi; perto do bar e café La Belle Équipe; e nas proximidades do Stade de France, estádio onde, no momento das explosões, jogavam França e Alemanha.

Em janeiro de 2016, com mais de 100 mortes, o centro histórico de Istambul foi bombardeado. Autoridades turcas disseram tratar-se de atividade do ISIS. Somente dois meses depois, foi a vez de Bruxelas. Explosões detonaram a estação Maelbeek de metrô e partes do Aeroporto Internacional de Zaventem, alarmando ainda mais as potências Ocidentais.

Ataques na Europa pelo ISIS (NYTimes)
Mapa do New York Times indicando, em vermelho, alguns dos principais ataques realizados pelo Estado Islâmico.

Fluxo migratório

              Quem mais tem recebido esses fugitivos da guerra são países do próprio Oriente Médio. Os trêm maiores expoentes são: Turquia, com quase 3 milhões de sírios, Líbano, com mais de 1 milhão, e Jordânia, com quase 700 mil.

refugiados no oriente medio
Mapa adaptado da BBC que mensura a entrada de refugiários sírios nos países vizinhos

Já na Europa, a Alemanha é quem tem sido o grande exemplo ao continente. Embora não seja quem recebe o maior número de refugiados, é a nação que mais os realoca. Países como a Grécia, por outro lado, enviam os imigrantes que lá chegam a outros países. O mesmo ocorre na Hungria que, com condições econômicas muito diferentes das gregas, mantém-se hostil frente à crise migratória. Viktor Orban, primeiro ministro, chegou a construir barreiras em partes das fronteiras buscando impedir o fluxo imigratório: “Eu acredito que nós temos direito de decidir que não queremos um grande número de muçulmanos no nosso país”.

European asylum-seeker decisions (The Economist)
Infográfico da The Economist que mapeia os pedidos por asilo na europa e seus resultados

Números da Guerra

                Desde o início do conflito, estima-se que 250 mil sírios foram mortos. 6,6 milhões foram forçosamente desalojados e outros 4,8 milhões emigraram. As condições de vida do povo sírio estão altamente prejudicadas. A situação de calamidade fica clara quando nos deparamos com as estatísticas: 11,5 milhões necessitam de assistência médica; 12,1 milhões estão sem água e higiene pessoal; 2,48 milhões não tem segurança alimentar; 1,5 milhões precisam de abrigo e utensílios domésticos; 13,5 milhões necessitam de auxílio humanitário urgente.

Estima-se que a Síria regrediu quatro décadas em sua história. A economia retraiu em 40%, a expectativa de vida caiu 20 anos e a frequência escolar caiu pela metade.

Esses números anunciam que os problemas não estão perto do fim. Se o conflito, por um passe de mágica, terminasse hoje, a Síria pós-guerra ainda teria feridas profundíssimas para tratar. Conforme as lutas continuam, só aumentam suas fragilidades.

Perspectivas

A Síria é hoje um mar de desgraças. Em pedaços, o governo de Bashar al-Assad controla somente parte do território, enquanto uma multiplicidade de outros atores comandam outras regiões, em disputa permanente.

Areas of control in Syria.png
Mapa da The Economist que indica as áreas de controle da Síria, apontando seus protagonistas

Neste jogo de interesses, os grandes prejudicados são os civis, sem saída. Muitas vezes impedidos de fugir do país pelos grupos extremistas, ficam presos entre os tiros e as bombas dos rebeldes, das tropas de Assad e das potências estrangeiras: “Para nós, não importa de quem são as bombas que estão nos matando”.

As negociações pela paz nos órgãos internacionais são sempre infrutíferas – e, há quem diga, inúteis. Até o cessar fogo anunciado no início de 2016 foi rapidamente descumprido, com ataque sobre Aleppo.

Caberá a Síria da paz uma lista praticamente infinita de necessidades. Será preciso reunificar o país, reviver a economia, recriar as instituições e conciliar os grupos religiosos. No entanto, enquanto ocorrem as mudanças, como garantir as ausentes condições higiene, acesso à água ou à comida? Como pensar a longo prazo, quando as crianças da guerra, jovens de hoje, tiveram sua educação suspensa?

A Síria, de acordo com o mundo ocidental, apresenta crescente perigo: a NATO poderia acabar em guerra com a Rússia; Moscou poderia decidir seguir desafiando as diretrizes do Ocidente;  Putin inspiraria regimes autocráticos por todo mundo; enquanto isso, cresceriam as forças jihadistas e junto à quantidade de refugiados na União Europeia.

Quem sabe, uma das causas da doença seja Bashar al-Assad e o Estado Islâmico seja apenas seu sintoma, mas pouco adianta discutir se antes veio o ovo ou a galinha. Os desafios sírios são imensuráveis e, até lá, os olhos do mundo repousarão sobre sua Guerra Civil.

 

“Não dava para saber quando as bombas cairíam, então preferíamos ficar em casa a maior parte do tempo. Pelo menos assim, se eles errassem [o alvo], você poderia morrer com sua família, não sozinho na rua, onde ninguém sabe quem você é” – BBC News

3 Comments

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  1. Narrativa extensa, detalhada e trágica da maior tragédia do início do século XXI. Até quando?

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  2. Muito, muito bacana a iniciativa! Parabéns! Irei acompanhar sempre que possível!

    Liked by 1 person

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