Deu Doria

No domingo, dia 3 de outubro, São Paulo foi às urnas votar um vereador e seu próximo prefeito. Para o segundo cargo, concorriam João Doria (PSDB-SP), Celso Russomano (PRB-SP), Marta Suplicy (PMDB-SP), Fernando Haddad (PT-SP), Luiza Erundina (PSOL-SP) e outros nanicos.

Com uma diferença folgada em relação ao segundo colocado Fernando Haddad, Doria passou na frente de todos os seus concorrentes com tranquilidade. O atual prefeito sequer recebeu a mesma quantidade de votos brancos e nulos somados. Enquanto 967.160 pessoas escolheram por sua reeleição, 1.155.850 dos eleitores decidiram não optar por candidato algum.

Político eloquente, apesar das falhas em sua gestão, Haddad mudou os paradigmas quanto ao que significa ser São Paulo. Trabalhou com sua humanização e em direção a espaços de convívio mais democráticos. Sua atuação, embora popular em alguns setores da sociedade, foi profundamente criticada por outros. Em pesquisa de julho de 2016 pelo DataFolha, Haddad apresentava uma rejeição de 45% na capital. Quando perguntados se votariam no atual prefeito, os entrevistados responderam que não. Outra pesquisa indicou que, no período final de seu mandato, era aprovado somente por 14% dos paulistanos, enquanto 48% deles consideravam seu governo ruim ou péssimo.

Embora esses números sejam importantes, também são eloquentes em sentidos menos óbvios que a perua rejeição. 

É bem verdade que sobre o atual prefeito recai uma clara insatisfação. Só é difícil compreender em relação a quê. Seria uma desaprovação de seu plano de gestão? De sua pessoa? De seu partido? De todos esses aspectos juntos?

A criação de ciclovias com supressão de espaço para os carros, o fechamento da Av. Paulista aos domingos e a redução da velocidade máxima nas marginais são exemplos de quebra de uma lógica tipicamente paulistana. Os projetos de Haddad vão em sentido oposto à primazia do indivíduo, prezando pela valorização de formas alternativas de transporte que não o individual, meio de ocupação da cidade que não dentro de espaços privados e medidas que favoreçam o coletivo. Doria, por outro lado, representa justamente o contrário: a vantagem individual independente da coletividade.

Em julho, Haddad era menos rejeitado entre os eleitores de Erundina, enquanto sua insatisfação extrapolava os 60% entre eleitores de Russomano e Doria. Uma rejeição muito mais que personalística, refletia a saturação dos partidos e candidatos da esquerda. Incapazes de reinventar-se, não apenas abriram espaço a candidaturas mais conservadoras como fizeram também que porções da sociedade acreditassem serem elas necessárias.

A ojeriza pelo Partido dos Trabalhadores despertada sobretudo pela Operação Lava Jato fez com que Haddad, um candidato ‘pouco petista’, fosse arrastado corrente abaixo pelo antipetismo. Um voto que não a Fernando Haddad representava mais um não ao Partido dos Trabalhadores que propriamente um sim a Doria, a Marta, a Russomano ou a qualquer outro.

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A questão econômica do apoio a Haddad verifica-se não apenas na ‘geografia’ dos votos, mas também nos perfis econômicos dos eleitores. Enquanto a boa avaliação de sua gestão encontra-se em um perfil econômico mais abastado e pontual (a partir de 5 salários mínimos), é generalizada a gama daqueles que consideram seu governo ruim ou péssimo (43% daqueles que ganham até dois salários mínimos mensais, 51% daqueles que ganham entre 2 e 5 SM, 46% entre 5 e 10 SM e 54% daqueles com renda a partir de 10 SM).

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Mesmo nas regiões nas quais não venceu Marta, a mais popular nas periferias, as sucessivas conquistas de Doria se quer deixaram espaço para alguma forma de competição. Quando as distâncias entre o futuro prefeito e o segundo mais votado se aproximavam dentro de cada zona eleitoral, ainda restavam tantos votos entre eles que a concorrência seria motivo de risada não se tratasse de uma piada de mau gosto.

A verdade é que o resultado da eleição não significou nem a vitória de Doria e tampoco a derrota de Haddad. Evidenciou, muito pelo contrário, que a votação para o futuro da prefeitura de São Paulo não estava lastreada nem na preocupação com projetos de governo nem em novas propostas de ação.

A escolha de João Doria passou, sim, por uma profunda recusa ao PT e às políticas coletivistas de Haddad, mas sua base constituiu-se, na verdade, de uma eloquente descrença na política e em seus agentes.

Empresário bem sucedido e apresentador de TV, Doria fez questão de deixar claro do começo ao fim: “não sou político, sou administrador”. Ao fazê-lo, o que queria dizer era: “não sou uma pessoa em quem vocês não devem confiar. Não sou ladrão. Sou sério, construí meu patrimônio e da mesma forma com a qual cuido do meu, tomarei conta do da cidade”.

“A impressão do eleitor é de que a política não pode mais ser consertada por políticos. O eleitor quer um tipo de moralidade que eles julgam só encontrar fora da política” – Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da FGV/EAESP, para a Folha

Apresentando-se como um trabalhador modelo, self-made man de sucesso, Doria afastou-se da classe política. Construiu-se como uma persona: homem de bem sucedido, esforçado e idôneo, virou representante de uma saída baseada em outros agentes que não os políticos – uma alternativa, portanto, mais confiável.

Contradizendo a inúmeras pesquisas de opinião e inovando na história, o número de votos depositados no peessedebista encerrou a disputa eleitoral logo no primeiro turno. Com uma diferença de aproximadamente 40% entre ele e o segundo candidato mais votado, teve uma vitória praticamente desimpedida. João Doria foi eleito mais fruto de uma reação que de uma escolha cautelosa. É imprescindível acompanhar sua administração futura para impedir que essa figura inventada de homem não retroceda em tanto que a complexa São Paulo já avançou. 

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