Distopias do século XX para pensar o XXI

A tradição de uma literatura distópica constituiu-se e consolidou-se essencialmente no século XX. Profundamente eloquente em seus tempos, não perdeu em nada a força de seu discurso apesar das gritantes transformações que separam os anos 1900 dos anos 2000.

Muitas dessas obras, para além de seu valor temporal, histórico e literário, têm significado político de tal maneira importante que ecoa até os dias recentes. Ainda, por exemplo, que a realidade que Orwell criticou em 1984 não seja objetivamente idêntica a nossa, possui aspectos simbólicos fundamentais que hoje vivemos sem nem nos darmos conta. O mesmo ocorre com os dois outros livros dois quais trataremos: Admirável Mundo Novo e Farenheit 451.

Separadas a seguir estão 3 obras da literatura distópica do século XX para pensar o XXI.

forever young.jpg

Admirável Mundo Novo é o título traduzido de Brave New World, icônica obra de Aldous Huxley. Autor e roteirista britânico (1894-1963), veio de uma família intelectual tanto por parte de sua mãe (descendente do poeta Matthew Arnold) quanto pela de seu pai (importante no campo das ciências biológicas).

Quando criança, aspirava ser cientista assim como seus irmãos mais velhos, seu pai e seu avô. No entanto, acometido por uma séria doença, teve sua visão seriamente prejudicada. Incapaz de enxergar normalmente, abriu mão da carreira biológica e preferiu concentrar-se na literatura.

Apesar de suas dificuldades físicas e das tragédias que acompanharam sua família (sua mãe faleceu de câncer e o irmão cometeu suicídio), desenvolveu-se com notável desenvoltura. Entre suas primeiras obras publicadas estão The Burning Wheel (1916) e Crome Yellow (1921), período no qual colaborou com inúmeros artigos para alguns periódicos.

Ao escrever Admirável Mundo Novo, consolidou seu lugar dentre os escritores ingleses mais importantes do século XX. Nessa obra imperdível, descreve uma sociedade asséptica sob as rédeas de um totalitarismo baseado na ciência. Compartimentalizada, rígida e conformada, não conhece a noção de família – as crianças são “gestadas” em grandes cápsulas -, nega o contato entre pessoas diferentes – a sociedade divide-se em castas hierarquizadas e incomunicáveis -, e é profundamente hedonista.

Através da ultra valorização científica, a sociedade funciona através de modelos tecnológicos e avançados que não dão lugar a falhas, à desordem e, sobretudo, a sentimentos desagradáveis. O incentivo constante às atividades prazerosas – como o sexo, ensinado inclusive às crianças – e a ingestão do soma, uma espécie de ‘pílula da felicidade’, aniquilam a possibilidade do inconformismo ou da discordância, de modo a conformar a todos os indivíduos da mesma forma.

Admirável Mundo Novo segue imprescindível e atual. Quais os limites dos avanços da ciência? Quais as consequências do prazer como fio condutor da sociedade? Como identificar formas graves, mas mais sutis de controle?

“Atualmente, tal é o progresso, os velhos trabalham, os velhos copulam, os velhos não têm um instante, um momento de ócio para furtar ao prazer, nem um minuto para se sentarem a pensar; ou se, alguma vez, por um acaso infeliz, um abismo de tempo se abrir na substância sólida de suas distrações, sempre averá o soma, o delicioso soma, meio grama de descanso de meio dia, um grama para o fim de semana […]”

forever young 1.jpg

É impossível não ter ouvido falar em Orwell ou ao menos em 1984. O clássico foi escrito pelo escritor e jornalista Eric Arthur Blair, britânico nascido na Índia e criado na Inglaterra. Apesar de ser esse seu verdadeiro nome, é conhecido por seu pseudônimo: George Orwell.

Não cresceu ou viveu em ambientes abastados e luxuosos, muito pelo contrário. Sua vasta experiência se deu em parte oriunda da condição financeira de sua família. Viveu a Londres proletária, serviu o Indian Imperial Army, e apenas alguns anos depois assumiu um cargo na estatal BBC, momento a partir do qual dedica-se com mais centralidade em uma carreira intelectual.

Orwell tem um longo histórico de envolvimento político e muitos dos seus escritos devem-se a essa característica central de sua história e personalidade. Só para dar alguns exemplos, lutou contra Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e também tratou da relação colonial entre Inglaterra e Índia em seus tempos de BBC. Não é à toa que duas das suas obras mais conhecidas, 1984 e Animal Farm, refletem diretamente suas preocupações frente aos autoritarismos ascendentes da primeira metade do século XX.

Enquanto Huxley advertia em Admirável Mundo Novo sobre os perigos apresentados das sociedades capitalistas, industriais e tecnológicas, Orwell, dialogando com suas preocupações políticas, dedicou-se à crítica de Estados autocráticos – à direita e à esquerda – em toda sua obra.

No contundente 1984, fala sobre um mundo posterior ao seu. Winston, o personagem principal, vive em Oceania, um dos três únicos países que existem nessa realidade, onde convive com autoritarismo, censura, violência, escassez e estratificação social. A rigidez dos comportamentos, o apagamento do indivíduo, a vigilância ininterrupta e a pobreza são mantidas por um sistema que extrapola o alcance da vontade de quaisquer indivíduos.

O Estado, comandado pelo Partido, escreve e reescreve a história. Jamais errado, exalta conquistas que jamais existiram, mas que também não poderão ser contestadas: se não há registros escritos, falados ou fotografados, como assegurar que uma versão diferente da oficial ocorrera? Nesse ambiente de controle sobre todos os aspectos das vidas das pessoas – não mais indivíduos, mas blocos desumanizados e cinzentos – comportamentos desviantes não são tolerados.

Denúncias, desaparecimentos, mortes e tortura são características inerentes àquela forma de mundo, assim como a escassez. Um sistema aparentemente insustentável, constrói-se pela manipulação do pensamento e da história. Oceania, Eurasia e Letasia, por exemplo, os três países desse futuro, estão em guerras entre si o tempo todo. Por quê? Porque grandes conflitos justificam a falta, aprofundam o nacionalismo e fortalecem 0 sistema como único agente capaz de defesa. A guerra aparece como fator de união.

Em um mundo de super vigilância e exaltação das emoções, 1984 traz reflexões indispensáveis à atualidade.

“Esse processo de alteração contínua valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados,fotos – enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado.”

forever young.jpg

Ray Bradbury é o autor de Farenheit 451. Assim como os outros dois livros acima, também foi produzido na forma de filme, popularizando-se. Apesar de sua relevância, é menos conhecido que 1984 e Admirável Mundo Novo.

Bradbury é natural de Illinois, Estados Unidos. Nascido nos anos 1920, faleceu em 2012. Figurou entre os grandes escritores de ficção científica de seu século, estreando sob os holofotes de “The Martian Chronicles”. Interessante notar que o autor não terminou seus estudos: sem condições para financiar sua ida à universidade, trabalhou como vendedor de jornal enquanto, leitor assíduo, trilhava um caminho de aprendizagem, em certo sentido, autodidata.

Farenheit 451 traz uma sociedade na qual livros são considerados uma ameaça. Proibidos, os que restaram escondidos devem ser incinerados pelos bombeiros – profissionais que, se antes apagavam incêndios, passaram a criá-los em nome da ordem. 

Sem livros, não há memória e tampouco homens que não aqueles do presente. Dessa forma, as pessoas perdem sua humanidade conforme deixa de existir a história, bem como qualquer outra forma de pensamento que extrapole a realidade dada.

Os homens, proibidos de transcendê-la, vivem “uma sociedade policialesca, com propensões totalitárias, em que a individualidade é sacrificada por razões de Estado”(1). Nesse sentido, um dos grandes méritos de Ray Bradbury é perceber “o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético – a moral do senso comum”(2).

Ora, o que há de mais contemporâneo que a indústria da cultura, a sociedade do consumo e o império do senso comum? Trata-se da institucionalização de uma nova forma de controle: divertir pour dominer (3). Em A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord defende, justamente, ser “O movimento de banalização que […] domina mundialmente a sociedade moderna […]”. Em um universo como esse, as fontes de repressão serão garantidas justamente pela “afirmação redundante do gozo deste mundo”.

Farenheit 451 é a temperatura em que se queimam livros. Em tempos de total banalização de formas de cultura que demandem mais tempo – como a literatura – não estaríamos nós também queimando livros?

“Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-se tanto com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações […] E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia […] Aí reside a melancolia.

 

(1) e (2) Manuel da Costa Pinto, em seu prefácio para a edição brasileira da Biblioteca Azul.
(3) DEBORD,  Guy. A Sociedade do Espetáculo: Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Unidade e Divisão na Aparência, página 39. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: