Os limites do apagamento histórico

“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la”, disse Edmund Burke no século XVIII, e repetiu Che Guevara não tantos anos atrás. Frase aparentemente simples, é de tal forma carregada de significado que não perdeu sua eloquência com o tempo – e, possivelmente, passou a dizer ainda mais.  De fato, desconhecer os erros cometidos pelo passado é como escancarar a porta de possibilidades das fabricadas tragédias humanas. 

Se nosso gênero já é tão propenso a jogar-se nas valas que abre para si, impedi-lo de aprender com os próprios erros é uma forma de suicídio coletivo. De maneira assustadora, embora previsível, se o remédio para os erros da humanidade é a história, os homens parecem interessar-se pouco por ele. Essa rejeição – voluntária ou não –  pode-se dizer que constitui uma espécie de apagamento histórico, uma forma a partir da qual os acontecimentos (que já sucederam) ficam definitivamente para trás, caídos no esquecimento. Ele relega ao passado não apenas fatos históricos, mas também todas as lições que eles carregam consigo. Não fosse esse apagamento, espanhóis, por exemplo, que conviveram com uma sangrenta e assassina Guerra Civil (1936-1939), reconhecendo o horror vivido por seus avôs e avós, poderiam mostrar-se mais compadecidos e proativos com refugiados expulsos de suas terras. Mas a Espanha – assim como toda a Europa – se esquece de seu passado e enfrenta uma onda xenofóbica.  

Seria possível imaginar que tal apagamento constituiria-se exclusivamente pela negação do uso da razão, uma negação da história e do passado. – o que não é em todo mentira. Para compreender o apagamento histórico, no entanto, é preciso ir mais longe. Repetir erros já conhecidos extrapola a simples decisão de olhar ou não para trás. A verdade é que a grande questão é compreender em que medida a razão e a memória histórica de fato são capazes de guiar a ação.

Em tempos de crise, o desespero, a necessidade superam as memóriass, a ética e a racionalidade. Em uma breve cena de “The Corageous Heart of Irene Sendler” (2009), um grupo de assistentes sociais encontra-se reunido para discutir possibilidades de auxílio a judeus do gueto na Alemanha nazista. Conforme confabulavam, uma das assistentes colocou-se contra as companheiras ao apontar que ajudar judeus era contra a lei. Toda sua justificativa baseava-se em aspectos que acreditava ela serem fatos indubitáveis: os judeus, enquanto inferiores, perigosos e doentes, levariam tifo à sua família e adoeceriam os alemães. 

Se em tempos prósperos a culpa já é sempre depositada no Outro (aquele que não sou eu), em períodos conturbados, a caça a um culpado – embora o eleito possa não ter culpa alguma – é frenética: é preciso encontrar quem expie todos os males e aflições coletivas. Essa pessoa jamais poderá ser alguém se quer remotamente parecido comigo: se o for, isso significará que possuo eu também parcelas de responsabilidade. O culpado, portanto, sempre será aquele que não sou eu ou como eu: será o judeu, a mulher, o negro, o gay. Será todo aquele que não for semelhante. Será o Outro. 

Rigorosamente nenhuma dessas posturas, no entanto, justificam nem jamais justificarão quaisquer formas de perseguição, subjugação ou discriminação. O exemplo nazista foi utilizado já que, por ser extremo, não deixa margem a dúvidas: em situações de confusão histórica, tudo que há de menos racional – e de maior excrescência – nos humanos se aflora em nome da proteção dos meus – eu, minha família, meus amigos, meu povo, meus semelhantes. 

Em tempos extremos, o instinto não apenas fala, mas grita. Acontece que esses berros, por mais altos que sejam, não poderão, nunca, dominar os homens (esse modus operandi de permanente estado de exceção faz com que todas atrocidades encontrem justificativa). Afinal, ainda que animais, não é à toa que nos distinguimos de todos os outros. Muito embora a racionalidade não nos seja uma iminência, é uma importante faculdade. 

Atribuir, portanto, ao apagamento histórico posturas como a rejeição dos europeus, por exemplo, povo familiarizado com situações de guerra, frente aos refugiados do Oriente Médio, se não é ingênuo é ao menos pretencioso. Os xenofóbicos não recusam sua entrada por falta de contato com a história de seus antepassados: o fazem por ignorância, preconceito, racismo. Encontram no Outro o bode expiatório para problemas que se quer são reais. O ser humano não é eminentemente racional ou lógico, ausente de emoção ou sentimento. Muito pelo contrário. Se em tempos pacíficos já toma decisões questionáveis derivadas desses traços, em momentos mais conturbados, contribui para a concretização de um caos generalizado (um presente de si para si).

A questão, portanto, de tão óbvia, parece fugir aos olhos: trata-se de equilíbrio. É preciso compreender que, em situações extremas, é mais difícil pedir razão às pessoas – o que elas querem são resultados. Imagine que você, leitor, tivesse um filho passando fome e que se deparasse com um homem também famélico. Imagine que ambos vislumbram, no mesmo instante, um pedaço de pão – o único que lá existe. Qual seria sua reação imediata? Dividir a comida ou sair correndo com ela? Responder a essa pergunta com honestidade nos ajuda a pensar o que aqui se contra exposto. Por outro lado, concordar que a humanidade esteja perdoada por agir de acordo com seus primeiros impulsos é, no mínimo, profundamente inaceitável. Assim fosse, com o perdão da imprecisão biológica, seríamos macacos, não homens. 

Genocídio, perseguição, abuso ou qualquer forma de violência objetiva ou simbólica jamais poderão ser justificados pela ótica do desespero: direitos humanos, respeito e garantias fundamentais não são só para tempos pacíficos. 

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