Make America What Again?

Com um PIB (Produto Interno Bruto) de mais de U$17 trilhões no ano de 2015, os Estados Unidos da América são a maior economia do mundo. Concretizaram sua posição hegemônica definitiva com o final da Guerra Fria, tendo contado com posições geopolíticas de extrema relevância ao longo de toda sua história. Não é à toa que são conhecidos como a polícia do mundo: depois de intervirem de forma cabal no andamento da 1a Guerra Mundial, jamais deixaram de colocar-se frente aos acontecimentos globais.

Das políticas de Estado e condições econômicas à produção de cultura pop, por exemplo, os Estados Unidos necessariamente influenciam (voluntária ou involuntariamente) todos os países do globo. Suas maiores crises econômicas, as de 1929 e 2008, desestabilizaram das mais longínquas às mais próximas nações. Seus impactos, no entanto, não aparecem na história apenas como meras consequências de processos internos: a divisão do mundo durante a Guerra Fria, a medieval caça às bruxas aos comunistas, a implantação de ditaduras na América Latina e a destruição desnecessária de países em guerras como a do Iraque são apenas alguns exemplos que ilustram a extensão dos tentáculos da ação estadunidense.

“Existem momentos em que as grandes nações dão viradas bruscas. Quando se trata dos Estados Unidos da América, a virada afeta a toda a humanidade” – EL PAÍS, Donald Trump vence as eleições dos Estados Unidos

No jogo das relações internacionais, os Estados Unidos possuem peso determinante. Apesar de algumas divergências acerca do assunto, é inegável que hoje os EUA sejam o maior polo de poder mundial (fato que, de qualquer forma, não significa ignorar a existência de outros centros de influência, ainda que menores).

Tamanha é sua relevância que, assim como no passado, o futuro dos Estados Unidos pesará sobre os demais atores internacionais: a eleição de Donald Trump no dia 8 de novembro de 2016 é histórica não apenas para os Estados Unidos, mas também para o mundo. Para além das consequências sobre internal affairs e seus reflexos no exterior, a escolha pelo milionário também manda uma mensagem infelizmente muito clara e de longo alcance: se um homem racista, machista, misógino e xenofóbico pode ser presidente da maior potência mundial, não há ação individual que seja grave demais.

“[…] the electorate has, in its plurality, decided to live in Trump’s world of vanity, hate, arrogance, untruth, and recklessness, his disdain for democratic norms […]” – The New Yorker, An American Tragedy

Não que a vitória da adversária democrata Hillary Clinton representasse um grande avanço em termos de políticas de Estado (sobretudo sob o ponto de vista da ação militar), mas, quando comparada com a vitória de seu adversário republicano, não é preciso grande esforço intelectual para compreender que Clinton era, no mínimo, a única escolha plausível.

Independentemente da capacidade de Trump enquanto administrador, a escolha do milionário para a presidência não passou de uma piada de mal gosto. O grande problema foi que essa gracinha acabou por gerar frutos – podres, é claro – até que já não era mais possível voltar atrás, desculpar-se pela falta de adequação e acabar com o assunto por ali.

A ascensão de Trump foi como uma espécie de aval aos mais retrógrados, como se dissesse: “vocês não estão sozinhos: há mais imbecis como nós, e juntos somos fortes”. Mais do que a vitória do republicano, ganharam, na realidade, os discursos de ódio, a intolerância, o maniqueísmo e o autoritarismo. Eles, no entanto, não nasceram com a candidatura de Trump. Há muito existiam e gestavam, esperando apenas por algo que os autorizassem a expressar sua pobreza de espírito com orgulho. Toda a demagogia do eleito foi o que mobilizou essa massa de seres médios a gritar com satisfação que são a escória social.

Embora improvável, é verdade que o jogo pode virar. Ainda que a população já tenha votado, serão os chamados delegates (delegados), em dezembro, que escolherão os candidatos em nome de seus estados. Apenas então, depois da contagem eleitoral pela Suprema Corte Americana, é que será possível saber com certeza quem será o futuro presidente dos Estados Unidos. E, assim, daquele momento em diante, os EUA terão sua solidez institucional testada.

Um alento dentro deste grande circo é que nem Trump nem suas ideias absurdas são capazes de governar sozinhas. Para além de limitações políticas, há também inúmeras barreiras legais que protegem a República e a Democracia.

Seja como for, fato é que a maior potência do mundo eleger um homem devido à sua plataforma de ódio e intolerância manda uma eloquente mensagem para o mundo e esse recado definitivamente não é bom.

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