12 livros, 12 meses

A dois dias de 2017, inauguramos a mais nova série da seção de cultura! Nela, trago alguns dos livros que li ao longo do ano, recomendações de leitura para quem está procurando sugestões para os 365 dias que estão por vir.

1Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora (ou autor) italiana misteriosa. Ascendeu aos olhos do público depois de publicar sua série de quatro romances napolitanos.

Em “A amiga genial”, Ferrante narra o começo da história de Lila e Lenu, duas crianças da periferia de Nápoles. Em um cenário miserável, a honestidade e a sinceridade com que Lila conta sua infância chocam. Acompanhamos suas vidas como se fossemos outra vez crianças e reconhecemos em suas aventuras antigos medos e alegrias.

Excelente ficção para o ano todo, melhor ainda durante as férias.

4

Clássico da literatura internacional, “1984” não é novidade alguma. Neste ano, reli o volume, mas em português. Continuo recomendando a leitura no inglês original, embora saiba que a obra continua valiosa em sua tradução para a língua portuguesa.

Uma boa forma de pensar sobre a atualidade, Orwell segue profundamente atual. Em um primeiro encontro ou como releitura vale de igual forma: “1984” segue inovador a todo momento.

5

Márai foi, sem dúvidas, uma das minhas leituras favoritas do ano. Em “De verdade”, conta uma história sobre a perspectiva de quatro personagens envolvidas na trama: Ilonka, a ex-mulher, Péter, o ex-marido, Judit, a criada, e um novaiorquino, o último confidente de Judit. Em uma Budapest que vive a decadência da burguesia e logo conviverá uma vez mais com a guerra e a escassez, somos convidados aos lares, às mentes e aos corações das personagens ao mesmo tempo que acompanhamos as mudanças que vêm transformando cabalmente o mundo.

A última parte do livro foi escrita posteriormente e, embora muito boa, não chega ao nível das anteriores. Seja como for, não há motivos para deixar Sandor Márai de lado.

10

Amerigo é um militante do Partido Comunista enviado a um decadente hospício de Turim para fiscalizar eleições que ali ocorreriam. De maneira coloquial, nos faz acompanhar seu fluxo de pensamento conforme se questiona sobre os mais diversos assuntos. Comunismo, o voto, vida, morte, normalidade e anormalidade são apenas alguns dos temas que Amerigo nos apresenta.

Curto, é um livro rápido. Justamente por isso, nas suas poucas palavras nos presenteia com inúmeros significados, ideias e perguntas. “O dia de um escrutinador” entrou para meus preferidos de 2016, reafirmando meu apreço pelo trabalho de Calvino.

11

“O céu de Lima” é desses livros cuja resenha acaba sendo mais interessante do que a obra em si. Inspirado em uma história real, Juán Gómes Bárcena escreve sobre dois jovens da elite limenha dos anos 1910. Apaixonados por poesia, encontram um meio curioso para chamar a atenção de seu poeta favorito, o espanhol Ramón Jiménez.

Ao criarem uma musa, fazem com que o poeta se apaixone por uma pessoa que na verdade não existe. A narrativa começa muito bem conforme retrata o processo pelo qual vão passando os dois amigos. Lá pela metade do livro, no entanto, é quando ela desanda e começa a perder sua força. Uma leitura leve, vale à pena para quem deseja algo curto, rápido e simples, mas não idiota.

6

Uma reunião de textos de Bobbio, “O terceiro ausente” só faz confirmar minha admiração por Bobbio. Longe do senso comum, claro e completo, o italiano traz reflexões sobre o futuro do mundo sob a perspectiva da guerra e da paz no contexto da Guerra Fria.

O peso da ameaça de uma guerra atômica – então uma novidade assustadora – liga todos os capítulos conforme Bobbio procura responder o que acredita ser o maior dilema contemporâneo: as armas nucleares.

Sem dúvidas um excelente livro – outro dos meus favoritos do ano – pode ficar repetitivo conforme chega ao fim. Para lidar com isso, basta fechá-lo onde parou e retomá-lo alguns meses depois.

2

Segundo romance da série de Elena Ferrante, “A história do novo sobrenome” é uma continuação tão imperdível como a série. Retrata a mudança das vidas de Lila e Lenu conforme viram adolescentes e então jovens.

“Só de pensar no filho perde as forças. O que foi parar na cabeça de Rinuccio […] Me viu ser insultada e espancada. Me viu quebrar as coisas e ofender. Em dialeto”

Escola, família, puberdade, amores, ciúmes, dúvidas, violência, abusos. Um belíssimo livro, é sensível, mas duro, mantendo sua honestidade arrebatadora. Acompanhar Lila e Lenu é mais do que um prazer, mas uma necessidade. Onde há de desaguar a árdua história dessas jovens?

7

Este foi meu primeiro livro de Gabriel García Márquez. Antes dele, só tinha lido entrevistas ou trechos escritos e, uns bons anos atrás, cheguei a ler o começo de “Cem anos de solidão” – vejo que vinha perdendo tempo.

“Amor en los tiempos del cólera” conta a história de Florentino Ariza e Fermina Daza, primeiro nos apresentados já velhos. Conforme o enredo se desenvolve, voltamos no tempo com os amantes e acompanhamos sua longa história, de modo que presente e futuro se encontrem.

Sensível, precisa e divertida, é uma leitura fluida. Assim como “A amiga genial” e “História do novo sobrenome”, “Amor en los tiempos del cólera” combina muito com este mais calmo primeiro período do ano.

9

O primeiro livro da série “As areias do Imperador”, “Mulheres de cinzas” estará sempre na ponta da minha língua para ser recomendado. Um baita livro.

“Para os portugueses, os africanos, inimigos ou aliados, eram uma massa indistinta: pretos de dia; escuros de noite”

Mia Couto, com poucas letras, exprime os mais complexos sentimentos, sensações, dilemas e histórias. Ao mesmo tempo que sensível, é profundamente contundente ao ilustrar as dores da colonização moçambicana. Fala sobre pessoas, não Estados: Lourenço Marques, Imani, os Ngungunyane, os VaChopi e muitos outos são os autores e as vítimas do processo colonizador em papéis que se confundem muito mais do que são bem definidos.

Uma história muito mais abrangente do que conquistar e perecer, Mia Couto fala das vidas daqueles que foram ocupados e dos que ocuparam e a forma com a qual se misturam em grupos muito mais múltiplos do que a clássica dicotomia ‘colonizador-colonizado’.

a-amiga-genial

“Um grão de trigo” é um dos livros mais importantes da literatura africana do século XX. No contexto da descolonização do continente, faz parte de um grupo de obras que reagiram à nova fase da história da África.

No livro em questão, Ngugi Wa Thiong’o fala sobre o processo de independência do Quênia e medita sobre a incerteza daqueles tempos. Como construir uma cultura nacional? Como tratar os mártires? Como conciliar contradições? Essencialmente: como recriar um país que já não existe mais e nem sabe quem é?

“Um dia as pessoas de Thabai e Rung’ei acordaram cercadas por soldados brancos e negros armados, e tanques vistos pela última vez em combate na guerra de Churchill contra Hitler […] E outros ainda tentavam sair de mansinho da aldeia rumo à floresta, só para descobrir que todas as estradas para a liberdade estavam bloqueadas”

Interessante e rico, é uma leitura que acrescenta muito. Não nego, no entanto, que não me encantou.

8

Amyr Klink é aquele brasileiro que veio remando da África ao Brasil. Com inúmeras viagens na bagagem, Klink recentemente aumentou sua lista de publicações com “Não há tempo a perder”. Em um livro curto, é como se o navegador estivesse do outro lado de uma mesa de bar nos contando sobre a vez que caiu de um barco durante a tempestade ou como discursou para o nada quando chegou à Antártida para sua primeira invernagem.

Em dois dias (que poderiam tranquilamente ter sido um) terminei o livro com a certeza de que foi uma excelente escolha para fechar o ano. Uma pena que não pude lê-lo olhando para o mar.

One Comment

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  1. Helena, adorei suas resenhas de livros! Que leitora atenta!
    Gostei demais do livro do Sandor Márai, ‘De Verdade” que li já faz alguns anos e concordo com você que a última parte não é tão boa. A meu ver, até poderia ter sido dispensada. Grande, imenso livro!
    Helena Ferrante, Garcia Marques, eletrizantes; Ítalo Calvino, George Orwell, Bobbio, livros de formação.
    Boa surpresa para mim a citação de Mia Couto: um autor cansativo no seu português rocambolesco, que lembra nosso queridíssimo Guimarães Rosa, com muito menos qualidade. Vou atrás de sua indicação.
    Você se apresentou por meio de suas escolhas literárias, uma excelente apresentação. Parabéns!

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