O que há em comum entre Jean Wyllys e Bolsonaro

A política brasileira tem dado muito o que falar nos últimos anos. Entre destituições, novo presidente, ministros inéditos, extinção de ministérios, denúncias e prisões, o Brasil é palco de uma espécie tragédia grega de mal gostoSe para 2017, a Netflix anunciou uma produção de Alexandre Padilha, diretor de grandes nomes do cinema nacional, sobre a Operação Lava Jato, isso deve significar que temos protagonistas suficientes para virarmos uma série de sucesso.

Em qualquer seriado, não importa quão trabalhadas sejam as personagens, alguns tipos invariavelmente se repetem. No teatro que tem sido a política brasileira, antes mesmo de qualquer Operação Lava Jato, já contávamos com clássicas figuras caricatas: um, populista e pai dos pobres, outro que promete varrer a corrupção do país e é retirado do governo, um terceiro que diz que rouba, mas faz. A lista não tem fim.

Nesse longo roteiro ainda sem final escrito, duas figuras toscas parecem ser cartas de baralhos e jogos diferentes. Os deputados Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e Jean Wyllys (PSOL-RJ), embora não possuam nenhuma fibra em comum no corpo ou nas ideias, são idênticos não enquanto pessoas, mas como fenômenos.

Personalidades conhecidas a nível nacional, são pouco relevantes em sua atuação dentro do Congresso. Cada um à sua maneira, fazem sucesso nas redes sociais e ascendem com suas polêmicas e seu extremismo. O que os difere – e trata-se de uma distinção importante – é o teor de suas declarações. Enquanto Wyllys defende os direitos humanos – e representa, nesse sentido, uma contraposição simbólica a uma postura dominante no Congresso – Bolsonaro conquista cada vez mais partidários com seu discurso violento e barbárico.

Embora tenha defendido torturadores da Ditadura Militar, dito que sua colega deputada “não merecia” ser estuprada por ser “feia” e que “ter filho gay é falta de porrada”, quem está sendo escrutinado pela Comissão de Ética da Câmara é o deputado do PSOL, não Jair Bolsonaro.

Em 2016, Bolsonaro se tornou réu no STF com o caso Maria do Rosário (a deputada que “não merecia ser estuprada”) e foi levado à Conselho de Ética e Decoro Parlamentar devido à saudação feita a Ustra, notório torturador do período militar, em sessão histórica na Câmara dos Deputados. No último caso – o único que já chegou ao fim – não foi responsabilizado pela apologia à tortura.

Jean Wyllys também foi parar no Conselho. No processo, ainda em andamento, pesa contra ele quebra de decoro parlamentar por cuspir em Bolsonaro em sessão plenária. Inegável a gravidade do cuspe do deputado do PSOL. Muito mais grave, no entanto, é a existência de um deputado que, sem receio ou pudor, defende e milita livremente pelo discurso de ódio e da intolerância.

Assim como no caso da eleição de Donald Trump, nos EUA, a impunidade de Bolsonaro, deputado há anos, diz aos brasileiros que o desrespeito aos direitos humanos, a violência e o ódio não só podem, como serão tolerados e respaldados pela lei. Wyllys poderá continuar sendo um personagem dentro do PSOL, assim como Bolsonaro poderia com o PSC, não fosse tamanha a gravidade de seus discursos: a conquista pela positivação dos direitos humanos é longa e árdua, e permitir o retorno da barbárie é, no mínimo, inaceitável.

Jean Wyllys não é uma pobre vítima na história da cusparada. No entanto, Bolsonaro vem cuspindo sobre os brasileiros, sobre a Constituição e sobre todos aqueles que lutam e já lutaram por garantias individuais e coletivas há tempos. Ir atrás de Wyllys e não de Bolsonaro fala em nome da impunidade e constrói novos paradigmas: se os limites não existem para parlamentares, a sociedade civil está autorizada a apoiar os discursos que bem desejar, independentemente de quão violentos e discriminatórios sejam.

Esses dois deputados, caras diferentes da mesma moeda, poderiam continuar atuando em seus papéis caricaturados, não fosse tão nocivo o discurso do social cristão. Nesse espetáculo infelizmente eletrizante da política brasileira, o melhor remédio para calar parlamentares como Bolsonaro, é responder-lhes com silêncio. É dando voz a esses monstrengos que acabamos puxando-os à superfície.

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