Imaginário de fim de mundo

Responda honestamente: a vida tem melhorado ou piorado? Comumente se responde que a Terra vai de mal a pior. De acordo com pesquisa da YouGov, a maior parte das pessoas crê que, hoje, a pobreza no mundo, por exemplo, se não piorou, ao menos continuou igual.

Ocorre que, hoje, se vive muito mais – e melhor – do que jamais se viveu.

Mas, então, se as coisas não pioraram, o que mudou?

Se, em 1820, 94% do planeta viva em situação de extrema pobreza, em 2015, essa porcentagem reduziu-se a 13%. Também em 1820 a distribuição de renda era muito mais concentrada do que se tornou nos anos 2000, momento único na história da humanidade, com a distribuição mais equitativa e abrangente já vista.

Em 1800, nenhum país contava com uma expectativa de vida superior aos 40 anos de idade. No entanto, em 2015, mais de metade da população mundial já não possuía expectativa inferior a 70 anos. Ocorre que, até 1950, a expectativa de vida era de tal forma desigual que conviviam países com uma média de pouco mais de 20 anos de idade ao lado de outros com mais de 70. Tais distâncias foram, então, muito encurtadas até 2015 como parte de uma tendência de redução das disparidades do mundo.

Não tão distante, em 1970, 39 países contavam de 300 a 500 mortes por mil nascimentos com vida. Em apenas 33 anos, mortalidade infantil reduziu-se de tal maneira que, em 2003, país nenhum superava 200 óbitos a cada mil nascimentos.

Essas mudanças refletem, em muito, alterações sofridas pelos Estados em seus modos de lidar com seus súditos ou cidadãos. As conquistas de novos direitos e garantias – e, eventualmente, sua positivação – criaram e alteraram formas de Estado e de Governo, que passaram a zelar mais pela população. O mundo se tornou um ambiente cada vez menos autocrático e viveu uma revolução quanto ao reconhecimento de direitos (não apenas individuais, mas coletivos, econômicos, políticos, culturais e sociais). Assim, se em 1900, 577 milhões de pessoas viviam em colônias, em 2015, essas colônias já não existiam mais. Se, em 1900, apenas 197 milhões conheciam uma realidade democrática, 115 anos depois eram 4,101 bilhões.

Dentre essa série de conquistas e direitos está a alfabetização, um elemento essencial para a promoção da igualdade no mundo globalizado. De 1800 a 1900 a maior parte das pessoas não sabia ler. Em 1800, os letrados eram 12%, concentrando para si um monopólio importante. Já em 1900, o número se quer dobrou, subindo para apenas 21%. No entanto, em 2014, o jogo virou e os alfabetizados passaram a constituir maioria: mais precisamente, 85% da população do planeta.

Se, em matéria de educação, igualdade (de gênero ou de classe) não era uma realidade se quer factível nos anos 1800, hoje, o mundo todo vive uma tendência acentuada de acesso amplo e abrangente no sistema educacional. No caso das mulheres, mesmo em países mais conservadores, muitas vezes com governos religiosos, a emancipação feminina toma cada vez mais espaço, e seus resultados são visíveis. Se antes mulheres eram presas em um universo patriarcal, hoje ele é continuamente quebrado e questionado. Basta pensar que, não muitas décadas atrás, seria impensável conceber que seria uma mulher a comandar a maior potência europeia no mundo de hoje, a Alemanha. 

Por que, então, acreditamos que as condições globais e locais têm se deteriorado? 

De acordo com The Gapminder Project, uma das explicações diz respeito à acessibilidade dos dados: “Estatísticas não chegam às pessoas como algo natural, muito pelo contrário. A maioria das pessoas compreendem o mundo a partir de experiências pessoais generalizadas”. Além disso, é muito mais fácil se concentrar sobre – e lembrar de – notícias recentes, o que apaga a noção de processo histórico e, portanto, faz ignorar mudanças paulatinas.

Existem também outras explicações para esse fenômeno. Curiosamente, as pessoas tendem a ser mais pessimistas quando se referem a perspectivas mais distantes e mais otimistas em relação às mais próximas. Isso significa que ao mesmo tempo que eu acredite que meus filhos poderão ter bons empregos, creio que o mundo conta com cada vez menor oferta e maior demanda de postos de trabalho.

De acordo com dados de 2007, quando perguntados sobre imigração, desemprego, crime, vandalismo e uso ou venda de drogas, ingleses acreditavam que todas essas questões eram problemas bem maiores no Reino Unido como um todo do que em suas próprias regiões. De modo similar, de 1990 a 2014, estadunidenses disseram, ano a ano, invariavelmente, crer que a quantidade de crimes no país vinha aumentando – o que ocorria mesmo em anos nos quais as taxas diminuíam ou permaneciam as mesmas.

A proximidade dá a sensação de conhecimento e controle – o que facilmente se liga a certo otimismo – enquanto a distância, e, portanto, a falta de controle e conhecimento de causa, fazem com que se sinta que as rédeas da situação já foram perdidas. A imagem sobre o que está mais longe, portanto, consegue ser ainda mais distorcida do que aquela das proximidades.

Pessimismo e o declinismo

Diferentemente do que se poderia imaginar, as nações mais desenvolvidas são aquelas que projetam para si um futuro pior. De acordo com o Spring 2015 Global Attitudes Survay, quando perguntados sobre o futuro econômico das crianças de seu país, a maior parte das nações desenvolvidas considerava que ele seria pior do que o passado vivido por ourworldindata_optimism-surveys-on-the-next-generation-by-countryseus pais. Já no caso dos emergentes e dos em desenvolvimento, o futuro projetado para essas crianças era positivo e de crescimento.

Para explicar esse fenômeno é preciso falar do declinismo, a crença de que um país ou alguma instituição estão em declínio. Isso ocorre sobretudo em nações que, já desenvolvidas, não contam com uma aceleração econômica tão acelerada. A redução do ritmo de sua expansão naquele determinado momento acaba sendo generalizada e considerada uma tendência absoluta da mesma forma com a qual o crescimento dos emergentes também passa a ser considerado uma tendência generalizada.

Não é à toa que o declinismo tem aparecido em grandes ou antigos impérios. A campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, baseou-se em um slogan justamente centrado sobre essa alusão a um passado de grandiosidade e expansão. Essa menção à tempos de gigante e o pessimismo com o qual os estadunidenses se vêem foi (dentre outros fatores) suficiente para que “Make America great again!” bastasse.

Portanto, não apenas sob o ponto de vista do declinismo, mas também de uma maneira mais geral, as mudanças são consideradas apenas em seu breve raio temporal – não enquanto processo ou parte de um contexto mais amplo. Existe uma diferença importante entre dizer, por exemplo, que o país A sofreu duas quedas consecutivas em seus indicadores de produtividade anuais, ou dizer que o mesmo país A, apesar do declínio, foi o país que menos sofreu com a desaceleração mundial. No primeiro caso, fora de contexto, a nação em questão parece estar em declínio. Por outro lado, no segundo exemplo, ao analisar-se todo um contexto é possível compreender, a partir da situação globalmente analisada, que o país A encontra-se em melhores lençóis.

Vivemos, então, em um mar de rosas?

O mundo progrediu em uma série de indicadores, é inegável. Tão inegável quanto é que ainda nos encontramos meio a um mar de desrespeito a condições mínimas essenciais à dignidade humana, em um planeta que conta com armas mais do que suficientes para a aniquilação absoluta do gênero humano e que cria e aniquila com proporções também jamais vistas.

A causa mais importante de morte de alguns países ainda se relaciona a doenças adquiridas pela falta de acesso à água potável.

Grandes potências notoriamente praticam trabalho em condições análogas à escravidão e, ainda assim, mantém seus padrões produtivos.

Governos e populações inteiras são coniventes com situações abuso e violência.

A comunidade LGBT+ segue sendo assassinada, discriminada e isolada, cidadãos de segunda classe, sem lugar nas nações mais desenvolvidas às mais subdesenvolvidas.

Há quase duas décadas no século XXI, ainda há quem faça distinção de superioridade de brancos sobre negros, índios, imigrantes – todos aqueles de alguma forma “diferentes”. No Brasil, por exemplo, um jovem negro tem 2,5 mais chances de ser morto do que um jovem branco (2012, Juventude Viva).

Seria possível elencar inúmeros problemas que continuam a brotar sobre as cada vez mais estéreis terras do planeta. Indicá-los não será um problema enquanto eles não sejam discutidos enquanto fatalismos: encarar as questões que afligem a humanidade requer doses igualmente importantes de sensibilidade e pragmatismo.

Nas palavras de Rodrigo de Almeida, “preocupação que gera temor, medo do que virá, é uma coisa. Preocupação que gera ação, medidas, negociações, isso é outra coisa”. Do espanto nasce o abandono, a desesperança e, logo, a inação (quando não uma reação extrema e absurda. Sem uma visão abrangente sobre o processo histórico, será impossível abandonar um modus operandi retrógrado e conservador em direção a um mundo mais igualitário, solidário e respeitoso. Não se trata de conversa sobre utopia; é uma questão de definir as posturas que conseguirão desenvolver uma realidade diferente.

One Comment

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  1. Um ode ao apanhado de referências/fontes inseridas em algumas palavras sublinhadas (menção honrosa: dados sobre mortalidade infantil).

    Sinto que a resposta pra “Vivemos, então, em um mar de rosas?” tem uma tendência perigosa de ser reduzida a realidades individuais. O problema, penso eu, é que as pessoas raramente buscam soluções coletivas. O modelo é o exemplar: eu vou por aqui, se vocês vêm também me é indiferente.

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