Era uma vez a guerra

Não conhecemos a guerra. Felizmente, conforme passam os tempos, ficam para trás as gerações que, ao redor do mundo, entraram em contato com esse tipo de conflito generalizado. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o combate com mais mortes na história da humanidade, marcou aqueles que hoje, se continuam aqui, já são avôs e avós. Mesmo a Guerra Fria, que mobilizou as pessoas de maneira muito diferente, isso é certo, embora recente, deixa lembranças tênues.

A paz mundial segue um sonho distante. O conflito armado no mundo não acabou, nem está perto de seu fim. Ainda há grupos, Estados inteiros, que se encontram cercados pelas tragédias do combate: Síria, Israel e Palestina, a Ucrânia e os separatistas são exemplos inegavelmente graves, mas que também podem parecer distantes. Em um mundo cada vez mais rico e seguro, a memória do conflito se esvai e vive no entretenimento. Filmes, seriados e videogames comemoram a violência ao conferirem-lhes caráter humorístico, glamourizarem seus agentes e suas consequências.

Capitaliza-se, portanto, sobre os horrores do conflito. Morte, genocídio, perda, dilaceração, dor, fome, doença, desespero, medo, sujeira: milhões e mais milhões faturados sobre guerras virtuais e cinematográficas das mais diversas espécies. Se antes um tiro ou uma explosão podiam assustar, hoje eles entretém. Por quê? Em “1984″, disse Orwell: a guerra é “um dos principais instrumentos por meio dos quais sociedades humanas” são “mantidas em contato com a realidade física”. O mundo, afastado física e cronologicamente de conflitos generalizados, vive um esquecimento generalizado que descola o homem de sua realidade: desconectado dela, é capaz de comprar e vender violência e desastres.

“You never knew what time the bombs would hit, so we preferred to stay at home most of the time. At least if they make a mistake you can die with your family, not in the street where no one knows where you are”

A guerra coloca o corpo e a mente a todo o tempo em situação de alerta, absolutamente conectados ao mundo circundante. A escassez faz compreender de onde a comida vem e que ela demora a nascer; as explosões, que o corpo humano é sensível e finito; as mortes, que a dor da perda de um amigo, de um familiar, do lar, é tão real em você quanto será no outro. Enquanto o conflito está longe, por outro lado, ele não parece palpável e, portanto, chega com menos intensidade.

Quando a banalização da violência encontra a ignorância histórica nasce  um espelho da sociedade contemporânea, consumidora da violência. Um corpo impressionável por aquilo que entretém, alienado dos tempos da natureza, imediatista e consumista, que, desconectado da realidade não percebe que a guerra é dizer: “Estávamos avançando… Os primeiros povoados alemães… […] Estávamos havia quatro anos sem mulheres […] Capturamos umas moças alemãs e… Dez homens estupravam uma. Não havia mulheres o suficiente, a população havia fugido do Exército soviético, pegamos as jovens. Meninas… Uns doze, treze anos… Se choravam, batíamos nelas […] enfiávamos algo na sua boca. Elas sentiam dor e achávamos engraçado. Agora não entendo como pude… […] Mas fui eu…”.

É contar: “De manhã, as tropas punitivas queimaram nossa aldeia… […] À noite a tia Nástia, nossa vizinha, batia na filha porque ela ficava chorando o tempo todo. Tia Nástia estava com seus cinco filhos. A Iúlietchka […] era bem fraquinha. Estava sempre doente… E os quatro meninos, todos pequenos, também pediam para comer. A tia Nástia ficou louca […] À noite, escutei… Iúlietchka estava pedindo: ‘Mamãe, não me afogue. Não vou… Não vou mais pedir comidinha para você. Não vou…’. De manhã, ninguém mais viu a Iúlietchka… […] Logo a tia Nástia se enforcou na macieira negra de seu jardim. […] Os filhos estavam ao lado dela, pedindo para comer…“.

É lembrar: “Nesse momento, a mulher que estava parindo lançou um grito de alívio. Um grito de alegria. E a criança começou a chorar. Tinha acabado de nascer […] Ainda não tinha nome, nada. Os bandidos se voltaram e nos perguntaram se [o neném] era de Kuliab ou de Pamir. Não se era menino ou menina, mas se era de Kuliab ou Pamir […] Não respondemos, então eles agarraram a criança que estava há cinco, dez minutos neste mundo e a atiraram pela janela…“.

A guerra não é brincadeira, e esquecer-se disso é dar um passo em direção a um mundo mais conflituoso. “Se o conflito não é tão nocivo assim, por que não solucionar disputas de interesse de maneira mais definitiva? O diálogo é moroso e a guerra é definitiva“, poderiam pensar. A dor de viver uma guerra, ninguém que nunca, felizmente, passou por uma, será capaz de dimensionar. Zelar para que esta realidade não se repita (sobretudo sob a ameaça das armas atômicas) é uma das grandes responsabilidades de nossas gerações e das que estão por vir.

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