Era uma vez a mulher

Gritaria, desespero, corre-corre. Com berros de ajuda e muita, muita confusão, foi como que se encerrou o feriado de Tiradentes em um bairro nobre de São Paulo. Não era assalto, perseguição, briga de família ou nenhuma das outras hipóteses clássicas de situações estressantes que acometem regiões como essa.

Com o cair da noite, as línguas explicavam o que ocorrera. O que se ficou sabendo é que a história que há pouco se desenrolara ali, naquela rua, naquele bairro, naquela cidade, naquele estado, não era, na verdade, nada mais do que uma sucessão de fatos brutalmente comuns. O marido que, por ciúmes, ameaçava sua esposa (ex-esposa, quem sabe?) com um revólver ao lado de seus três filhos não pertence exclusivamente a essa história, assim como a mulher que gritava pedindo ajuda e que eventualmente sacou-lhe a arma das mãos. Todas as peças deste acontecimento fazem parte de uma dura, antiga e recorrente narrativa de violência contra a mulher.

A narrativa é velha, sim. De recente mesmo só o ainda prematuro sistema de proteção sobre a mulher. Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem data de 1948, o primeiro documento internacional pensado exclusivamente sobre a tutela feminina não tem sequer 40 anos. Fruto da I Conferência Mundial da Mulher, no México, a Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW) só vai surgir em 1979 e, no caso do Brasil, ser ratificada em 1984.

Sua tenra idade demonstra uma dura resistência de longuíssima data. Não é à toa que, ainda hoje, 155 países possuem ao menos uma lei que impede o desenvolvimento econômico da mulher e, em uma outra centena de países, sofrem com alguma forma de restrição trabalhista motivada pelo gênero [1]. Ou que ao menos 1 entre 3 mulheres (35% das mulheres ao redor do mundo) se não sofreram, sofrerão com alguma forma de abuso físico ou sexual praticado por parceiros ou familiares [2]. Em sua maioria, casos de violência como esses não são, nem serão praticados por estranhos, mas, sim, por parceiros ou familiares [3].

Uma velha história

O Brasil é signatário de todos os tratados internacionais que se referem à proteção (direta ou indireta) dos direitos das mulheres e à erradicação de todas as formas de discriminação e violência com base no gênero. Conta com uma legislação interna contra a violência doméstica que é referência na América Latina, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), e é, na região, um dos países com a legislação mais avançada em termos de igualdade de gênero.

De qualquer forma, sofre – assim como tantas outras nações do mundo – com a dificuldade de erradicar um mal que é estrutural: o machismo. Os avanços legislativos e da opinião pública são imprescindíveis, é certo, mas ainda devem percorrer um longo caminho. Afinal, não faz nem um ano que 30 jovens estupraram e filmaram coletivamente uma adolescente de 16 anos, sem remorso algum – muito pelo contrário – e que o goleiro Bruno, condenado pela morte da namorada, voltou aos gramados aplaudido.

No caso do goleiro, posando para inúmeras selfies em sua reestreia, Bruno Fernandes de Souza treinou normalmente no Boa Esporte Clube. Causou polêmica, é claro, e custou patrocínios ao clube – estranho seria se não fosse essa a reação. Importante mesmo é que Bruno estava nos gramados, mesmo depois do feminicídio de sua namorada. Eliza Samurdio foi assassinada em 2010, esquartejada e entregue como comida aos cães, uma forma de ocultar seu corpo.

Claramente, o problema aqui não é que Bruno tenha arranjado um emprego. Ex-presidiários, ou detentos em condição parcial de liberdade devem, sim, ser reinseridos na sociedade. A cadeia não é uma condição perpétua, mesmo depois da liberdade. O caso do goleiro, portanto, não é esse. Contratado sem hesitações por um clube de futebol, esporte de alcance e prestígio nacional, colocou-se em um cargo de projeção pública, sem que qualquer manifestação o acometesse com a devida relevância.

Em comum, a mulher da noite do feriado, Eliza Samurdio e tantas outras, têm o gênero. Por motivos antigos e de origens múltiplas, ser mulher é estatística de desigualdade, discriminação, violência doméstica, estupro e morte. Combinado à cor da pele e à classe social, a simples existência de uma mulher já faz dela inúmeras coisas que ela jamais escolheu ser.

A enfermidade era congénita: Chikazi Makwakwa não sentia dor. Mãos e braços, marcados por sucessivas queimaduras, faziam o marido estranhar. Acreditava, no entanto, que aquela insensibilidade resultasse de amuletos encomendados à cunhada Rosi. Apenas eu sabia que era uma deficiência de nascença.

— E a outra dor, mãe?

— Que outra?

— A dor da alma. Ela riu-se, encolhendo os ombros. Que alma? Que alma lhe restava depois de lhe morrerem duas filhas e os dois filhos terem saído de casa? — A sua mãe também era espancada?

— A avó, a bisavó e a trisavó. É assim desde que a mulher é mulher. Prepare-se para ser espancada também você.

One Comment

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  1. Muito bom o texto! Gosto de acompanhar seu trabalho, parabéns!

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