O prefeito faz-de-conta

Quem diria que brincar de “faz-de-conta” seria tão real ainda na vida adulta. O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., que se vestiu de gari no primeiro dia de mandato, tem impactado a forma com a qual os paulistanos o veem através de estratégias brutalmente simples – e brincar de fantasia é uma delas.

Seu êxito em consagrar-se enquanto figura pública de respeito não repousa nas suas habilidades enquanto gestor (ao menos não por hora), mas, sim, nos gestos simbólicos que estampam jornais e capas de revistas e que rendem longas discussões na mesa do bar, no ponto do ônibus e no banco do táxi. Doria não faz mais que ampliar, na voz do funcionário público que representa, o pensamento do paulistano médio: ao reiterar o discurso liberal e meritocrático, fala o que desejam ouvir e reforça uma identificação através de valores comuns.

Quando Doria veste-se de gari, jardineiro, pedreiro ou pintor, não está se dedicando a melhoras objetivas na cidade. Diferentemente do que muito se tem dito, quando aparece lado a lado com aqueles trabalhadores, não está lhes prestando respeito (fosse esse o caso, tomaria medidas que lhes seriam benéficas com ou sem a presença das câmeras), nem trabalhando em direção a uma São Paulo menos desigual, suja ou congestionada. Ainda assim, mantém-se como um prefeito com índices de aprovação extremamente positivos – é aqui, portanto, que entra o faz de conta.

Em SP, painel de Kobra na 23 de Maio amanhece pichadoComo parte do Cidade Linda, Doria causou polêmica ao apagar, arbitrariamente e sem aviso, grafites e pichações, apostando no cinza como estratégia de embelezamento da cidade. Na disputa infantil travada por Doria contra pichadores e grafiteiros, quanto dinheiro público foi dedicado à brincadeira infantil de “pinta e repinta” nos muros da capital?

Quando Fernando Haddad iniciou a pintura das ciclofaixas – muitas delas bastante mal planejadas, é verdade – a reação negativa veio a galope. O ex-prefeito foi duramente criticado pelo excesso de dinheiro público destinado à pintura de quilômetros de faixas. Quando Doria, por outro lado, insistia em apagar uma, outra e outra vez os muros desenhados e redesenhados em protesto, os mesmos que se preocuparam com o preço das faixas para bicicleta não pareceram importar-se com o gasto destinado a esse jogo infantil de tira e põe.

Por quê?

Se no caso das ciclofaixas tratava-se de um empreendimento de mobilidade urbana, é difícil ver onde a pintura cinza se encaixaria como contribuição pública, sobretudo se considerarmos que grafites e pichações são um dos principais atrativos turísticos da cidade de São Paulo. Por incrível que pareça, Doria sai ileso de situações como essas, pois as mensagens que continua transmitindo são muito mais marcantes do que seu duvidoso jeito de governar. Quando se veste de gari, jardineiro, pedreiro, pintor, ciclista ou daquilo que a agenda do dia pedir, aproxima-se dos eleitores e dos possíveis eleitores ao pintar-se como um homem humilde que faz acontecer e não tem medo do trabalho.

Em suas andanças à fantasia, reforça o antigo e popular discurso de que só o trabalho dignifica. Não à toa, no recente vídeo publicado pelo perfil do Facebook do prefeito, no dia 26 de abril, Doria, ao referir-se à Greve Geral, fez um apelo aos paulistanos: “dia 28 é dia de trabalho. Só quem não quer trabalhar é que vai fazer greve […] aqui, ao contrário de quem não quer trabalhar, a gente quer produzir”. Deslegitimando o direito constitucional à greve, encontrou a força de seu discurso no respaldo popular ao falar aquilo que sempre se diz nos pontos de ônibus, táxis e no meio do trânsito em dia de greve. Em outras palavras, reforçou o sentimento comum de que “essas coisas só atrapalham o dia da gente…”

A diferença, no caso do vídeo, é que o discurso sai das conversas de botequim e vai para a boca do representante da maior cidade da América Latina.

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Os relações públicas de Doria merecem uma salva de palmas. Com 43% de aprovação e nem cinco meses de mandato, fizeram com que Doria chegasse a ser popularmente cotado para como presidenciável de 2018. Nem eles nem o prefeito, no entanto, inventaram da roda. Muito antes de Doria, Jânio Quadros já comia sanduíches com os sapatos trocados e seu broche de vassourinha, e Lula posava ao lado de metalúrgicos e petroleiros.

Acontece que Jânio era um deboche, e Lula o presidente que terminou seu governo com os maiores índices de aprovação da história brasileira. E Doria? Em seu caso, ser patético é o preço que se paga por uma estratégia, por hora, muito bem sucedida – prova de que sua brincadeira de faz de conta não é vã.

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