Se gritar “pega ladrão”

Michel Temer está de parabéns. O presidente tem a aprovação mais baixa já apontada pelo Ibope desde que se iniciaram as marcações em 1986 (5% dos brasileiros consideram seu governo bom ou ótimo e 70% consideram-no ruim ou péssimo) e é objeto de denúncia de corrupção passiva no caso da JBS. Tem uma composição ministerial de aproximadamente 1/3 de ministros investigados pela Lava Jato, alguns deles antigos conhecidos do Judiciário, como Eliseu Padilha, Moreira Franco ou Ricardo Barros. Faz parte também do segundo partido com mais parlamentares investigados no Supremo Tribunal Federal, o PMDB, empatados com o PT. Mesmo com tudo isso sobre as costas, Michel Temer consegue aprovar a lei da terceirização e a reforma trabalhista, e ainda garante que a Câmara dos Deputados barre a abertura do inquérito que pesa contra ele no STF.

As importantes vitórias políticas que o peemedebista conquistou em pouco mais um ano de mandato são surpreendentes. Se Dilma Rousseff, em seu pé de guerra com o Congresso, deu trabalho dobrado aos articuladores do Planalto apenas para morrer na praia, Michel Temer fez o contrário. Velho conhecido dos altos escalões de tomada de decisão, foi pragmático e usou (como continua a usar) seu capital político e objetivo para barganhar com o Legislativo – o que tem feito a altos custos, mas, à medida do possível, com sucesso.

Negociar cargos, capital e favores não parece ter sido um empecilho à atual lógica governista. Muito pelo contrário, o que se tem feito, sem menor hesitação, é jogar com as regras de um jogo político bastante cru e de barganhas óbvias: eu te dou o que você quer, e você me dá o que eu quero. Não que essa seja uma prática inovadora, muito pelo contrário. O que o PMDB tem feito, no entanto, é praticá-la com a transparência e a avidez de um governo que se agarra à cadeira presidencial e que não tem muito mais a perder.

Não à toa, durante a votação quanto à abertura do inquérito contra Temer pelo Supremo, Imbassahy passava pelos deputados anotando nomes e partidos que ainda pendiam em negociar algo com o governo, uma forma de angariar os votos necessários. Já bem disse Bernardo Mello Franco, colunista da Folha de S. Paulo, que “o que mantém um presidente na cadeira é a sua capacidade de manter o Congresso no cabresto“. É verdade. Vinicius Mota, também colunista, completa o raciocínio quando diz que as chances de sobrevivência de Michel Temer “são diretamente proporcionais à disposição e à capacidade de diluir seu enorme poder no tanque de interesses do Congresso” – exatamente o que o governo tem se esforçado para fazer.

Benett. 03 de agosto de 2017, Opinião, Folha de S. Paulo.Negociações assim tão descaradas podem surpreender os espectadores da crise, mas não deveriam. Nos anos 1980, Bezerra da Silva já cantava: “se gritar pega ladrão/ não fica, um meu irmão”. Acreditar que a política nacional se faz às claras e em nome do bem público é ingenuidade: prevalece o interesse privado em um jogo de quem se propõe a corromper e de quem aceita ser corrompido, onde a expectativa de uma política moral não passa de sonho contraproducente.

Se política fosse moral, levaria outro nome. É preciso levar em consideração um fato tão básico para conseguir pensar nas regras do jogo: política é política e, por aqui, se dá como se dá. Assim, se o sistema permite a institucionalização da corrupção, é preciso repensá-lo ao invés de chorar as pitangas e desejar a explosão do Congresso Nacional. Nesse sentido, espantar-se com os escândalos revelados pela Lava Jato,  por exemplo, embora natural, carrega doses de ingenuidade: as manchetes não são exceções, mas sim continuação de uma lógica muito clara e bem desenhada.

É preciso, portanto, pensar sobre o que deve ser prioridade.  Se a corrupção é endêmica, é preciso combater os corruptos ou o sistema que garante sua perpetuação? Basta imaginar um corpo com pneumonia. Você poderá tanto fazer inalações com soro e assoar o nariz, se negando a tomar antibióticos, quanto fazer o tratamento completo. O que há de ser mais eficaz? A primeira opção, embora pareça empenhar atitude e esforços positivos, só faz prolongar a doença. Já a segunda, busca combater o próprio mecanismo de reprodução das bactérias.

Se a sociedade civil quiser limpar o poder, discurso comum nos dias de hoje, precisará reconhecer que a política se dá para além da moralidade – e que, a bem da verdade, não existe nada como ‘limpar o poder’. Se rouba até dinheiro de merenda escolar infantil, então impeditivo moral não há: a saída tem que ser estrutural. Que reformas institucionais, então, poderão trabalhar contra esse tipo de comportamento? A urgente reforma política (reforma de verdade, não mecanismo de manutenção de velhas forças) só trará resultados se for pensada a partir do que a realidade de fato é e necessita.

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