O dilema da autoverdade

Recentemente, o portal de checagem Aos Fatos publicou uma matéria intitulada “Em dez semanas como presidente, Bolsonaro deu uma declaração errada por dia”. A investigação, publicada pelas jornalistas Tai Nalon, Ana Rita Cunha e Bárbara Libório, diz que Jair Bolsonaro “deu 149 declarações passíveis de checagem, das quais 82 eram completamente falsas ou apresentavam algum grau de erro” desde o início de seu mandato, em 1º de janeiro de 2019. Trata-se, como diz o título, de uma média de uma informação equivocada por dia.

Análises como essa têm se tornado cada vez mais comuns, conforme líderes políticos ao redor do globo se dedicam a destilar falsidades aos quatro ventos, e agências de checagem trabalham para desvendá-las. Um exemplo popular está em Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que, em 2018, teve uma média de quinze afirmações falsas por dia.

Nesse contexto, o fact-checking se propõe a combater a desinformação e se coloca como entreposto entre alegações de políticos e outras personalidades e o acesso da sociedade civil a informações de qualidade. 

Para que mentiras senão para convencer alguém de algo?

Em “Why obvious lies make great propaganda” (“Porque mentiras óbvias são ótima propaganda”, da Vox), Carlos Maza (baseado em um estudo da Rand Corporation sobre propaganda política na Rússia de Vladimir Putin) explica como falsas alegações desse gênero (em grande volume, por múltiplos canais, sem compromisso com a realidade nem consistência em relação às alegações) não tem como objetivo persuadir nem apoiadores, nem adversários.

Pelo contrário, não se trata de convencimento, mas de um importante jogo de poder. Quando Bolsonaro, Trump ou Putin mentem com tanta insistência e fazem afirmações com parca relação com o mundo real, o que fazem é afirmar que a realidade não os impede. Criam a possibilidade de que tudo (até o que há de mais óbvio) possa ser questionado – e o real vira questão de opinião: uma jornalista que quis arruinar Flávio Bolsonaro e o governo, imigrantes ilegais que derrotaram Trump no voto popular, e a ausência de tropas russas na Crimeia em 2015, e por aí vai.

A necessidade de se explicar o óbvio passa a ser uma armadilha quase inescapável, uma vez que não é possível deixar de conviver (nem de longe, na vida cidadã, nem de perto, nos bastidores palacianos) com o discurso presidencial. O que não deveria ser motivo de debate, passa a ser uma questão de importância e abrangência nacional.

Para a jornalista Masha Gessen, que estuda as semelhanças da propaganda política de Putin e Trump, “não há nada mais humilhante e desempoderador do que tentar provar a verdade […] te forçando a argumentar o óbvio”.

Foi ao que Eliane Brum se referiu ao falar sobre a necessidade de se “explicar o autoexplicável” em sua coluna de outubro de 2018, “Como resistir em tempos brutos”. “Vivemos o que tenho definido como ‘autoverdade’: o conteúdo não importa, importa o ato de dizer. Assim, checar os fatos também não importa, porque os fatos não importam […] A verdade se tornou uma escolha pessoal“.

Se a verdade é uma escolha individual, então a checagem de fatos poderá não servir para grande coisa. Afinal, Trump não inverteu o discurso das fake news, se colocando como vítima das notícias falsas? Assim, como a mídia em geral, os fact-checkers poderão ser inimigos tão desacreditados como o resto dos veículos.

De acordo com o estudo da Rand Corporation, uma coisa é certa: “não espere combater o jato de falsidades [firehose of falsehood, no original] com o esguicho da verdade”. Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a importância do trabalho de checagem. Resta saber: como escapar deste grande lago congelado sobre o qual é impossível caminhar adiante?

1 thought on “O dilema da autoverdade

  1. Excelente, Helena. Claro como água limpa. Assustador. O vídeo, aterrorizante.
    O que fazer? Continuar, por enquanto, o que estamos fazendo: checar e denunciar. Até surgir algo mais eficaz.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close