6 livros, 6 meses

Em 2016, fiz um post com os 12 livros que eu havia lido ao longo do ano. Desde então, quis fazer o mesmo em 2017 e em 2018, mas deixei a ideia de lado. Para não acontecer a mesma coisa esse ano, decidi fazer diferente. Trago, então, os seis livros que li ao longo do semestre, de janeiro a junho. Confesso que quase não há literatura e, por isso, adicionei à lista um título que li em novembro passado.

Para saber mais sobre o livro e onde o encontrar, clique sobre a imagem.

A AMIGA GENIAL

Sou muito grata por ter encontrado Scholastique e “Baratas” em meu caminho. Acho que o trabalho de Mukassonga deveria ser leitura obrigatória (não necessariamente na escola ou na faculdade, mas na vida). No livro, a autora narra com imensa franqueza a sua história desde de criança, em Cyanika (Ruanda), até vida adulta, onde, na França, as ausências e a dor de um massacre que se iniciou muito antes de 1994 não se calam.

Seus relatos poderiam ser obra de algum autor distópico deste século ou do passado. Infelizmente (e essa palavra certamente não basta) não são. A dor do livro está na inexorável e inescapável verdade que traz ao leitor. Ler “Baratas” é um dever para consigo mesmo e em relação a todos os outros seres humanos que habitam ou já habitaram esta terra.

“É somente lá, junto das ossadas, que me sinto em casa. Ao lado dos mortos estou em segurança”

A AMIGA GENIAL (1)

A edição de “Mulheres”, de Eduardo Galeano, foi publicada em português pela LPM Pocket. No começo do ano, quando fui atrás do livro, não havia mais exemplares disponíveis (agora, vejo que o livro está disponível de novo). Decidi ler em espanhol, mas acabei com uma versão reduzida de 59 páginas que encontrei em um sebo (Alianza Cien, 1995).

Confesso que tinha mais expectativas. Talvez por ter lido apenas alguns dos capítulos ao invés da edição completa, talvez porque esse seja um livro de cabeceira (para se ler uma história ou outra antes de dormir e terminar o dia bem) e não para o dia a dia, eu não criei laços com a obra. Há, sim, contos lindos e eu não deixaria de recomendar o livro, mas considerando que sempre temos uma pilha de coisas interessantes para ler, eu deixaria essa compra (pelo menos essa versão de poucas páginas) para outro dia.

“La libertad ofende. Mujer de ojos brillantes, Isadora es enemiga declarada de la escuela, el matrimonio, la danza clásica y de todo que enjaule al viento. Ella baila porque bailando goza, y baila lo que quiere, cuando quiere y como quiere, y las orquestas callan ante la música que nace de su cuerpo”

A AMIGA GENIAL (3)

A série “Feminismos Plurais” fez um sucesso estrondoso. Demorei para ler alguma das seis publicações, e, chegado janeiro, decidi ler sobre encarceramento. Foi uma ótima escolha. O livro é sério, tem referências importantes, mas sem parecer um artigo acadêmico difícil e moroso. A leitura ágil sem dúvidas é um ponto positivo do livro, embora eu tenha sentido que essa agilidade por vezes faça com que o pensamento de Juliana Borges vá mais rápido que as palavras, em raciocínios que o leitor não acompanha.

“O que é encarceramento em massa?” é uma boa forma de se colocar alguém em contato com o tema de forma suficientemente aprofundada e a partir de uma perspectiva interseccional.

“Como aponta Davis, a relação estabelecida é da insistência no cárcere como justiça. Isto tem se mostrado absolutamente equivocado. As ligações têm sido, historicamente, entre punição e raça, entre gênero e castigo, entre classe e criminalização e punição. Ou seja, é a perspectiva racializada que define quem será ou não punido”

A AMIGA GENIAL (4)

Há um ou dois anos ouvi falar de Audre Lorde. Tirando o que conheço de Fernando Pessoa e seus heterônimos, nunca me interessei por poesia. Lorde, que é poeta, portanto, esteve sempre a alguns braços de distância. Um belo erro… Acabei lendo Audre por causa de um trabalho da faculdade. Entre as várias obras de outros autores que eu poderia ter escolhido, decidi que era hora de me sentar com ela. Confesso que li pouco (quase nada) de sua poesia. Acabei ficando com a prosa em um livro que reúne diversos escritos e discursos seus ao longo dos anos 1970, 1980 e 1990. 

Eu não imaginava, mas “Sister Outsider” seria muito importante para mim. Lorde fala essencialmente sobre a libertação humana, sobre falas e silêncios, sobre o outro e a diferença, sobre sua difícil posição enquanto mulher, negra, lésbica, mãe, poeta – tudo, para mim, de maneira inesquecível. 

Lorde demonstra como sua posicionalidade não é negociada e que as partes de sua identidade não podem ser dissociadas. Sem que saiba, dialoga com críticos atuais das  “políticas identitárias” que insistem em compreedê-la repetindo as mesmas lógicas que Audre já criticava nos anos 1960.

A poeta respondeu muitas questões que eu tinha e tantas outras que eu não imaginava ter. Conversou comigo e me presenteou com suas palavras – e, para mim, nada mais apaixonante do que um belo uso de palavras. Aproveito para recomendar este podcast (em inglês) sobre a autora e sua trajetória.

“The fact that we are here and that I speak these words is an attempt to break that silence and bridge some of those differences between us, for it is not difference which immobilizes us, but silence. And there are so many silences to be broken.”

A AMIGA GENIAL

O livro é imperdível. Confesso que não li tooodas as páginas (entre não ler e ler a maior parte, fico com a segunda opção), mas posso afirmar mesmo assim que essa é uma leitura e tanto. Não é fácil e rápida, muito menos banal. Pelo contrário, Origens exige um tempo e uma dedicação que uma leitura no ônibus, por exemplo, não garantem.

Minhas partes favoritas foram a I (“Antissemitismo”e a III (“Totalitarismo”). Para quem se interessa pela história do povo judeu (não tanto no sentido religioso, mas no político e histórico) a primeira parte traz insights únicos. Quanto à segunda, a atualidade do texto de Arendt faz com que essa seja uma leitura imprescindível para todos aqueles que vivem o século XXI.

A AMIGA GENIAL (2)

“Necropolítica” é um curto ensaio do intelectual camaronês Achille Mbembe. Nele, Mbembe fala sobre como a expressão da soberania não se reflete na capacidade de se ter o domínio último dentro de um território, por exemplo, mas no poder em se definir quem há de viver e quem há de morrer. 

Gostaria muito de ter lido o ensaio com outra(s) pessoa(s) para ter com quem discutir passagens, tirar dúvidas e localizar melhor algumas das ideias de Mbembe. A vantagem de ser um texto curto é que certamente voltarei a lê-lo outra vezes – quem sabe, em alguma delas, acompanhada.

“Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é “a condição para a aceitabilidade do fazer morrer”

2 thoughts on “6 livros, 6 meses

  1. Helena, mais uma vez você surpreende pela escolha de suas leituras. Elas são um guia imprescindível para se entender o mundo de hoje. Sempre temos a esperança de que, ao quebrar o silêncio, as tragédias não se repitam.
    Concordo com você quanto ao Mulheres de Eduardo Galeano. Muitas histórias lindas para se ler antes de dormir. Também não criei laços.

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  2. HELENA.
    EXCELENTE ESCOLHA,E INTELIGENTES COMENTÁRIOS
    CONTINUE SEMPRE.BEIJOS TIA GI.

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