Crise no PSL

Nos últimos dias, muito tem se falado sobre uma crise no PSL, o Partido Social Liberal. O racha entre a ala bolsonarista, liderada pelo presidente do Brasil, e a bivarista, do presidente do partido, Luciano Bivar, criou um clima generalizado de pega pra capar. Insultos públicos, insultos vazados, ameaças em redes sociais e conversas sobre troca de partido extrapolaram os bastidores e pintam o cenário de crise no Partido. Entenda.

Tudo começou quando, ainda em 2017, Jair Bolsonaro sondava partidos que topassem lançar sua campanha à presidência para ano seguinte – já que havia sido recusado pelo seu. Até então, o capitão reformado fazia parte do PSC (Partido Social Cristão), legenda na qual ingressou em março de 2016 depois de deixar o PP (Partido Progressista), em uma longa trajetória de troca-troca partidário.

Antes do namoro com o PSL, Bolsonaro flertou seriamente com o PEN (Partido Ecológico Nacional, atual Patriota) em 2017. Embora tenha assinado em novembro daquele ano uma filiação pré-datada com o Partido, as negociações ruíram e acabaram, como disse Bolsonaro, em “um casamento que não deu certo”.

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Ao lado do presidente do Patriota, Adilson Barroso, Bolsonaro fez foto com o 51, número da legenda. Foto: divulgação/Patriota.

O presidente do Patriota não ficou calado. Adilson Barroso, que ainda está à frente do partido, desabafou à época: “fiz das tripas coração para tê-lo com a gente, mudei o nome do partido, mexi no nosso estatuto, dei mais de 20 diretórios para o grupo dele. Mas você não pode ser convidado para entrar em uma casa e depois querer tomar ela inteira para você, expulsando seus moradores originais”.

Gustavo Bebianno foi chave para o fim das negociações com o Patriota. Bolsonaro e Bebianno defendiam que o advogado assumisse a presidência da sigla, mas Adilson Barroso não topou. “Se eles querem um partido, que fundem um ou tomem de outro”, afirmou.

Com Luciano Bivar a história foi diferente. O presidente do PSL aceitou transferir a liderança do partido a Bebianno que, ao final das eleições, retornaria o posto a Bivar. Assim, em janeiro de 2018, Bolsonaro assinou seu compromisso com Luciano e migrou para o PSL em março, durante a janela partidária, período para que candidatos podem mudar de partido político sem perda de mandato. Horas depois de eleito Jair Bolsonaro, Bebianno devolveu o posto a Bivar.

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O sorriso do primeiro encontro: Jair Bolsonaro e Luciano Bivar nas conversas iniciais sobre a entrada do militar no partido. Foto: divulgação/PSL

A casa não durou muito tempo em pé. Investigações acerca do esquema de candidaturas de laranjas no PSL reveladas pela Folha de S. Paulo acabaram com a relação de Bolsonaro e Bebianno. Carlos Bolsonaro colocou lenha na fogueira e conversas vazadas entre o presidente e o ex-ministro foram a gota final. Bebianno foi o primeiro ministro a ser exonerado após exatos 49 dias de governo Bolsonaro (ou 50, se contarmos que a saída do ex-ministro foi publicada no Diário Oficial da União um dia depois do anúncio pelo porta-voz da presidência).

Mas Bivar não saiu impune. A sequência de matérias publicadas pela Folha também afetou a imagem do presidente do PSL que é investigado por liderar o esquema de candidaturas laranjas pelo partido em Pernambuco.

Charge: Iotti

As tensões entre Bolsonaro e Luciano Bivar vieram à público com uma declaração de Bolsonaro a um apoiador, no dia 8 de outubro. Pediu para que não divulgasse o vídeo no qual enquadra o presidente e clama: “Eu, Bolsonaro e Bivar. Juntos por um novo Recife. Aê!”. O presidente, ao fazer o pedido, explica: “o cara [Luciano Bivar] está queimado pra caramba”, “vai queimar meu filme também”. E completa: “esquece esse cara. Esquece o partido”.

O presidente do PSL não deixou o assunto de lado. Disse à jornalista Andréa Sadi no dia 9 de outubro que “a fala dele [Bolsonaro] foi terminal, ele já está afastado. Não disse para esquecer o partido? Está esquecido”.

O caldo continuou entornando quando, dois dias depois, Bolsonaro apresentou por meio de seus advogados um pedido de abertura de todas as contas do PSL nos últimos cinco anos, alegando falta de transparência e precariedade nas contas (vale relembrar aqui que o presidente ingressou no partido só em 2018). Subscreveram o pedido 21 parlamentares da sigla, incluindo seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal, Eduardo Bolsonaro. De acordo com o G1, “a auditoria pode ser um caminho para alegação de justa causa para que os parlamentares se desfiliem da legenda sem o risco de perder os cargos”.

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Charge: Cazo

Com o circo já armado, a confusão chegou à Câmara. O presidente Bolsonaro e seu filho Eduardo partiram em ofensiva para retirar Delegado Waldir (PSL-GO), aliado a Bivar, do comando do partido na Casa.

“Falta uma assinatura para a gente tirar o líder”, disse Bolsonaro em áudio vazado na manhã do dia 16 de outubro. Ele se referia a uma lista com assinaturas de parlamentares pesselistas que seria usada para retirar de Waldir de seu posto. No dia seguinte, foi a vez do deputado Waldir: “eu vou implodir o presidente”, disse em áudio vazado por Daniel Silveira (PSL-RJ), da ala bolsonarista – e depois voltou atrás, que nem “mulher traída”.

Depois de uma guerra de listas disputando a permanência de Waldir e a entrada de Eduardo Bolsonaro para comando da legenda na Câmara, o grupo bivarista foi vitorioso e o Delegado Waldir garantiu seu posto.

Se engana quem acredita que tudo acabou em pizza. Do lado de Jair Bolsonaro, a retaliação foi contra Joice Hasselmann que foi retirada de sua posição de líder do PSL no Congresso. Do outro lado, Bia Kicis, Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro perderam, por ordem de Luciano Bivar, seus postos regionais no comando do PSL. Veja mais aqui.

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Foto: reprodução

Mas por que tanta briga? A tensão que existe entre bivaristas e bolsonaristas se dá como em qualquer partido composto por grupos que pensam e agem de maneiras diferentes, até antagônicas. O que acirra a briga entre eles – e isso é o que importa – é o controle do PSL.

A disputa é pelo ouro. O PSL foi criado por Luciano Bivar em meados dos anos 1990. Em 2018, quando foi alugado para Jair Bolsonaro, a legenda conheceu proporções nunca imaginadas para um nanico daquele. O PSL tornou-se o segundo maior partido na Câmara dos Deputados com 52 representantes atrás apenas do Partido dos Trabalhadores (PT), com 56 (em 2014, a bancada do PSL era composta por um deputado, Dr. Grilo, por Minas Gerais).

São mais de R$200 milhões do fundo eleitoral que deverão ir para o partido no ano que vem, aponta o jornalista Gerson Camarotti. Isso, sem contar com o tempo no horário eleitoral do qual a legenda dispõe, uma parcela robusta considerando o tamanho que o partido tem atualmente.

A disputa, portanto, é objetiva. São cargos, poder, tempo e dinheiro em jogo. Como comentou um colega: Bolsonaro tratou o partido como seu, Bivar estrilou e Bolsonaro gritou truco. Resta saber qual será a saída adotada tanto por bolsonaristas, que precisam de uma estrutura partidária sólida para seguirem atuando como desejam, quanto por bivaristas, que não querem abrir mão de um partido que acaba de conhecer o poder.

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