Protestos na América Latina acirram embates contra venezuelanos

“Eu saí da Venezuela exatamente no dia 27 de julho de 2018. Bem antes de ter imigrado, eu já conhecia histórias sobre um contexto de xenofobia e preconceito contra os venezuelanos por amigos e familiares que saíram da Venezuela entre 2015 e 2017”, conta María José Ocando.

Aos 28 anos, María deixou seu país de origem em busca de melhores condições de vida. De acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA), além dela, pelo menos outros 4 milhões de venezuelanos (mais de 13% da população total da Venezuela) deixaram o país desde 2015.

Para a OEA, a crise político-social resultou na segunda maior movimentação de refugiados e imigrantes do mundo, seguida somente da Síria. Na Venezuela de Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez, a inflação chegou a oito dígitos, o índice de homicídios elevou-se ao mais alto da América, a fome alastrou-se e são noticiadas violações sistemáticas contra direitos humanos.

A região que mais tem recebido aqueles que deixaram a Venezuela é a América Latina. Colômbia, Peru, Chile e Equador, por exemplo, abrigam 65% dos venezuelanos que imigraram. Na Colômbia, a maior receptora desse fluxo, são 1,3 milhões de pessoas até hoje, e no Peru, o segundo maior, são mais de 768 mil.

Trata-se um processo importante em uma região tradicionalmente associada à emigração, ou seja, à saída de pessoas de determinado território. Agora recebendo aqueles que deixaram seu país (assim como foi em 2010 e 2012 com a imigração haitiana) a América Latina sente o impacto de milhões de deslocamentos dentro de seu território.

Hostilidade contra venezuelanos

Segundo a organização não governamental Oxfam, na Colômbia, no Equador e no Peru, países que mais recebem os imigrantes e refugiados venezuelanos, é possível observar um discurso antimigratório cada vez mais marcado por “sentimentos xenófobos e discriminatórios”. No relatório “Sí, Pero no Aquí” (ou “Sim, mas não aqui”, em português), de outubro desse ano, a ONG alerta para uma postura ambivalente: dentre os entrevistados, ao mesmo tempo muitos que reconhecem os motivos pelos quais seus vizinhos tiveram que deixar a Venezuela, eles também deixam clara sua defesa por políticas de migração mais estritas.

A ONG não é a única a alertar a sobre as hostilidades contra venezuelanos na região. Em relatório de setembro de 2018, também fala em xenofobia e discriminação a ONG Human Rights Watch (HRW). A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, órgão regional de proteção aos direitos humanos, se posicionou no mesmo sentido com uma resolução em março de 2018.

Protestos acirram tensões

No início de outubro, o Peru dissolvia seu Congresso, e começavam protestos no Equador contra o fim dos subsídios ao combustível. Pouco tempo depois, chilenos confrontavam a polícia em choques violentos, e não tardou até que sindicalistas convocassem uma greve geral na Colombia.

Analistas discutem o que essa “onda de protestos” (que também ocorreram na Bolívia e na Argentina) têm em comum e em que guardam diferenças.

Algo que os une é o tratamento em relação aos imigrantes e refugiados venezuelanos. Chamados a voltarem a seu país de origem e hostilizados nas ruas e nas redes sociais (em diferentes graus a depender do país), eles vêm sendo associados à violência e ao vandalismo, a saques e a roubos no contexto dos protestos.

Ao comentar sobre essa associação automática entre venezuelanos e delitos, María José Ocando criticou: “nossa nacionalidade não nos define como ser humano. Um venezuelano ladrão não é o mesmo que um venezuelano trabalhador”.

Para Daniel Portillo, fotógrafo de Maracaibo (Venezuela) que vive há alguns anos na capital chilena de Santiago, “não é que todos os venezuelanos que estão no Chile sejam bons, mas eu acredito que ser bom ou mau não depende da nacionalidade“. E completa: “a maioria trabalha duro e está crescendo”.

Ataques e fake news

Na Colômbia, a hashtag #venecos foi trending topic em 22 de novembro, apenas um dia depois de iniciada a greve geral no país. Segundo a Academia Venezuelana da Língua, “veneco” é uma forma depreciativa de se referir a venezuelanos que estão na Colômbia. A expressão, que vem sendo usada de maneira ofensiva para se referir aos imigrantes e refugiados nos países de língua hispânica pela América Latina, viralizou ao culpabilizar ou difamar imigrantes e refugiados durante os protestos.

Os tweets que vinham associados ao termo estavam muito bem divididos entre aqueles que o utilizavam de forma ofensiva, e quem (venezuelanos ou colombianos), apontavam para seu uso problemático. “Eu sou venezuelana, estrangeira radicada em Medellín, Colombia. Não é porque deixei meu país que devem me chamar de veneca”, explica María José.

Notícias falsas também se tornaram comuns. No final de outubro, viralizou no Chile, por exemplo, a notícia de que 60 venezuelanos haviam sido detidos pela polícia durante confusão em um protesto. De acordo com as informações disponíveis, seis deles seriam funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência da Venezuela (SEBIN) e levavam consigo pistolas e credenciais diplomáticas.

A história era falsa e se referia a uma operação policial de 2018, em Honduras, como demonstrou o portal argentino de checagem de fatos, Chequeado. Apesar disso, foram comuns comentários no Twitter como “outra prova de que Nicolás Maduro exporta terrorismo aos países vizinhos” e “todos deveriam ser considerados terroristas!” mesmo depois de desmentida a notícia.

Em Quito, no Equador, a Ministra do Interior, María Paula Romo, criou alarde ao publicar em seu Twitter imagens de uma operação policial; com elas, um texto que dizia: “Dezessete detidos no aeroporto de Quito essa manhã. A maioria deles, venezuelanos. Em seu poder, informação sobre o trajeto do Presidente e do Vice-presidente”.

A alegação era de que essas pessoas pretendiam atentar contra a caravana presidencial. De acordo com o jornal RT Actualidades, no entanto, descobriu-se que eram, na verdade, 17 venezuelanos, um equatoriano e um cubano – 19 pessoas, motoristas de transporte privado por aplicativo que estavam nos arredores do aeroporto. Quinze dos 17 venezuelanos foram inocentados, e o presidente da Associação de Venezuelanos do Equador, Eduardo Febres Cordero, exigiu desculpas públicas.

“Então vocês se deram conta que quando pedíamos que não os deixassem entrar facilmente e que exigissem um visto, era por situações como essa? Já se deram conta que não era ‘xenofobia’?”, comentou um seguidor.

O tweet (publicado em um momento de tensão, apenas três dias após a transferência da sede do governo de Quito a Guayaquil), ecoou sobretudo entre aqueles que se opõem à imigração venezuelana, um padrão comum que se repete pela região.

América Latina dentro da curva

Os episódios de discriminação contra imigrantes e refugiados venezuelanos não são uma característica exclusiva da América Latina. “O crescimento da xenofobia é algo que marca de certa forma a realidade global, principalmente a partir do momento em que você tem uma apropriação de um discurso de segregação, de tensão em relação a grupos e um reforço de um nacionalismo de tipo excludente [a nível mundial]”, explica João Carlos Jarochinski, professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e pesquisador sobre imigrações e fronteiras. Segundo ele, os venezuelanos estão no olho do furacão, porque são o grande grupo que circula pela região no momento.

Para explicar o problema, no entanto, é preciso pensar além de termos quantitativos. Os xingamentos muitas vezes dirigidos aos grupos venezuelanos estão, na verdade, diretamente relacionados ao regime que impera há décadas na Venezuela. Taxados de chavistas, maduristas ou comunistas, os imigrantes são forçados para dentro de categorias entendidas como a encarnação do mal.

Existe aí uma confusão que não permite distinguir quem são os nacionais (ou seja, os venezuelanos) e o que é o Estado. O povo da Venezuela não é um projeto pensado por Chávez, por Maduro ou mesmo por Guaidó. São pessoas de origens e histórias múltiplas, ricas em cultura e diversidade, um corpo social com concordâncias e discordâncias, assim como qualquer outro país do mundo.

“Quando você acaba associando o Estado venezuelano com os próprios venezuelanos, você também  acaba criando uma tensão maior”, alerta o professor.

Essa falta de distinção entre as pessoas e o Estado é aproveitada politicamente dentro dos países da região, algo que não é novo. Basta lembrar das eleições presidenciais brasileiras de 2014, quando frases de efeito como “volta para Venezuela!”, ou “volta para Cuba!”, junto de cantos como “a nossa bandeira jamais será vermelha”, eram utilizados para criticar uma das candidatas considerada mais à esquerda, Dilma Rousseff (PT).

Nesse momento, a situação não foi diferente. Lenín Moreno, presidente do Equador, chegou a afirmar em outubro que os protestos que eclodiam no país faziam parte de um “plano sistemático” seu ex-aliado político, Rafael Corrêa, e de Nicolás Maduro para derrubá-lo.

Disputaram também Caracas e Lima, em setembro. Depois de uma série de graves relatos de xenofobia contra imigrantes e refugiados venezuelanos no Peru, Nicolás Maduro acusou o governo de Martín Vizcarra de promover e permitir atos de segregação e xenofobia, e de violar e descumprir com responsabilidades internacionais.

“A Venezuela acaba tendo um peso muito maior dentro dessa retórica de construção de narrativas na política interna dos Estados”, esclarece o professor Jarochinski.

Considerando a projeção da ACNUR de que a imigração venezuelana superará a síria em 2020, é preciso encarar a situação com a gravidade devida. A expectativa de 6,4 milhões de imigrantes até o final do próximo ano aponta para uma série de dificuldades que deverão ser enfrentadas sem estigmas e sem um discurso nacionalista excludente.

Published by Helena L. Ceneviva

Internacionalista que tem fome de histórias e coisa nova.

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