Se gritar “pega ladrão”

Michel Temer está de parabéns. O presidente tem a aprovação mais baixa já apontada pelo Ibope desde que se iniciaram as marcações em 1986 (5% dos brasileiros consideram seu governo bom ou ótimo e 70% consideram-no ruim ou péssimo) e é objeto de denúncia de corrupção passiva no caso da JBS. Tem uma composição ministerial de aproximadamente 1/3 de ministros investigados pela Lava Jato, alguns deles antigos conhecidos do Judiciário, como Eliseu Padilha, Moreira Franco ou Ricardo Barros. Faz parte também do segundo partido com mais parlamentares investigados no Supremo Tribunal Federal, o PMDB, empatados com o PT. Mesmo com tudo isso sobre as costas, Michel Temer consegue aprovar a lei da terceirização e a reforma trabalhista, e ainda garante que a Câmara dos Deputados barre a abertura do inquérito que pesa contra ele no STF.

As importantes vitórias políticas que o peemedebista conquistou em pouco mais um ano de mandato são surpreendentes. Se Dilma Rousseff, em seu pé de guerra com o Congresso, deu trabalho dobrado aos articuladores do Planalto apenas para morrer na praia, Michel Temer fez o contrário. Velho conhecido dos altos escalões de tomada de decisão, foi pragmático e usou (como continua a usar) seu capital político e objetivo para barganhar com o Legislativo – o que tem feito a altos custos, mas, à medida do possível, com sucesso.

Negociar cargos, capital e favores não parece ter sido um empecilho à atual lógica governista. Muito pelo contrário, o que se tem feito, sem menor hesitação, é jogar com as regras de um jogo político bastante cru e de barganhas óbvias: eu te dou o que você quer, e você me dá o que eu quero. Não que essa seja uma prática inovadora, muito pelo contrário. O que o PMDB tem feito, no entanto, é praticá-la com a transparência e a avidez de um governo que se agarra à cadeira presidencial e que não tem muito mais a perder.

Não à toa, durante a votação quanto à abertura do inquérito contra Temer pelo Supremo, Imbassahy passava pelos deputados anotando nomes e partidos que ainda pendiam em negociar algo com o governo, uma forma de angariar os votos necessários. Já bem disse Bernardo Mello Franco, colunista da Folha de S. Paulo, que “o que mantém um presidente na cadeira é a sua capacidade de manter o Congresso no cabresto“. É verdade. Vinicius Mota, também colunista, completa o raciocínio quando diz que as chances de sobrevivência de Michel Temer “são diretamente proporcionais à disposição e à capacidade de diluir seu enorme poder no tanque de interesses do Congresso” – exatamente o que o governo tem se esforçado para fazer.

Benett. 03 de agosto de 2017, Opinião, Folha de S. Paulo.Negociações assim tão descaradas podem surpreender os espectadores da crise, mas não deveriam. Nos anos 1980, Bezerra da Silva já cantava: “se gritar pega ladrão/ não fica, um meu irmão”. Acreditar que a política nacional se faz às claras e em nome do bem público é ingenuidade: prevalece o interesse privado em um jogo de quem se propõe a corromper e de quem aceita ser corrompido, onde a expectativa de uma política moral não passa de sonho contraproducente.

Se política fosse moral, levaria outro nome. É preciso levar em consideração um fato tão básico para conseguir pensar nas regras do jogo: política é política e, por aqui, se dá como se dá. Assim, se o sistema permite a institucionalização da corrupção, é preciso repensá-lo ao invés de chorar as pitangas e desejar a explosão do Congresso Nacional. Nesse sentido, espantar-se com os escândalos revelados pela Lava Jato,  por exemplo, embora natural, carrega doses de ingenuidade: as manchetes não são exceções, mas sim continuação de uma lógica muito clara e bem desenhada.

É preciso, portanto, pensar sobre o que deve ser prioridade.  Se a corrupção é endêmica, é preciso combater os corruptos ou o sistema que garante sua perpetuação? Basta imaginar um corpo com pneumonia. Você poderá tanto fazer inalações com soro e assoar o nariz, se negando a tomar antibióticos, quanto fazer o tratamento completo. O que há de ser mais eficaz? A primeira opção, embora pareça empenhar atitude e esforços positivos, só faz prolongar a doença. Já a segunda, busca combater o próprio mecanismo de reprodução das bactérias.

Se a sociedade civil quiser limpar o poder, discurso comum nos dias de hoje, precisará reconhecer que a política se dá para além da moralidade – e que, a bem da verdade, não existe nada como ‘limpar o poder’. Se rouba até dinheiro de merenda escolar infantil, então impeditivo moral não há: a saída tem que ser estrutural. Que reformas institucionais, então, poderão trabalhar contra esse tipo de comportamento? A urgente reforma política (reforma de verdade, não mecanismo de manutenção de velhas forças) só trará resultados se for pensada a partir do que a realidade de fato é e necessita.

Macri: etapa ou tendência?

Cambiemos e a última dos K

Na Casa Rosada, quando se vê ululando uma pequenina bandeira nacional, sabe-se que o presidente está. A partir de dezembro de 2015, a bandeira deixou de subir pelo kirchnerismo, como fez por 12 anos, e passou subir por um Macri. Vitorioso por magra diferença, com 51% dos votos contra 49%, se dedicou a cultivar sua plataforma eleitoral baseada no discurso de mudança.

Naquele 2015, fora a primeira vez na história democrática argentina que uma disputa eleitoral chegara ao fim do segundo turno. Em 2003, enquanto competiam Néstor Kircher e Carlos Menem pela presidência, o pleito chegaria à segunda rodada, não fosse Menem abandonar sua candidatura. Embora não tivesse controle sobre isso, Mauricio Macri já chegava em clima de mudança ao romper uma tradição eleitoral argentina.

Macri vence as eleições presidenciais em novembro de 2015

Expoente do Cambiemos (“mudemos”, na tradução literal), coligação que já leva em seu nome a intenção que vende, Mauricio Macri apresentou-se nos pleitos presidenciais como a possibilidade de ruptura com 12 anos de kirchnerismo. O então prefeito de Buenos Aires (cidade com um terço dos eleitores nacionais) defendia a necessidade de retomada do crescimento econômico e de readequação da administração pública, focado em propostas bastante diferentes em relação ao estilo K de governar.

Do outro lado da competição, Daniel Scioli, candidato da oposição, era nome apontado por Cristina F. Kirchner. Scioli, do Partido Justicialista, anos antes fora vice de Néstor, o primeiro dos K a governar a argentina. Duas vezes representante da continuidade política (tanto por Cristina, quanto por Néstor e pelo Justicialista), era a competição contra o único candidato anti-kirchnerista possível.

Sergio Massa, o terceiro na tríplice dos principais candidatos à presidência se colocava sob o mesmo guarda-chuva de Macri, mas não com a mesma projeção. Sua ligação com o kirchnerismo talvez fosse parte importante da resposta à pergunta de por que Macri e não Massa. Para Alejandro Rebossio, jornalista da revista argentina Perfil e da TV alemã Deutch Welle, “o problema de Massa era que fora kirchnerista por dez anos e nos últimos dois deixou de sê-lo, o que tirou credibilidade do seu discurso”.

Foco de desconfiança popular e empresarial, Massa acabou se distanciando do centro da disputa eleitoral. Restavam Macri e Scioli em uma competição histórica que seria ganha a duras penas. No primeiro turno, Scioli saiu na frente com 37% dos votos, enquanto Mauricio carregou 34% deles. O que teria sido uma vitória no Brasil, no sistema eleitoral argentino, no entanto, não foi suficiente para encerrar a disputa.

Na Argentina, para que a vitória saia logo no primeiro turno, é preciso que um dos candidatos receba mais de 45% dos votos ou então receba 40% deles mais uma diferença de dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado. Sem atingir a fórmula necessária, para triunfo macrista e desespero kirchnerista a Argentina viveu, pela primeira vez na história, uma disputa em segundo turno. Na segunda rodada, bastaria a maioria para se garantir a vitória e, em dezembro de 2015, Mauricio Macri, com uma diferença de apenas 648 mil votos em relação ao opositor, foi eleito presidente.

Mauricio Macri (dir.) e Daniel Scioli (esq.) debateram fervorosamente pelo cargo de presidente da Argentina

A competição não fora simples. Ainda três semanas antes do pleito, era muito difícil saber aonde chegaria a disputa. Nessa época, por exemplo, quatorze consultorias publicaram pesquisas eleitorais com diferenças importantes. Enquanto sete delas apontavam para a vitória de Daniel Scioli (Hugo Haime, Aresco, CEOP, Ipsos-Mora y Araujo, Poliarquia, Ricardo Rouvier e Analogias), a outra metade alertava sobre a probabilidade do segundo turno (Raúl Aragón, Elypsis, González y Valladares, Polldata, Management & Fit, Ibarómetro e OPSM).

Seguindo uma plataforma eleitoral pela mudança, em seu caminho à presidência Mauricio Macri mudou também questões internas à campanha. Dentre as principais, seu discurso. Se no passado reforçava sua posição anti-K, passou a amenizá-la para conseguir mais eco eleitoral. “Macri sabia que se fosse muito anti-kirchnerista não seria votado. Por isso, disse ‘vamos acabar com la grieta [uma espécie de fla-flu político argentino], resgatar o que há de bom e melhorá-lo’”, comenta Alejandro Rebossio.

Essa reforma de discurso reflete um outro fator importante das eleições de 2015. Na ocasião, seu partido (PRO) e ele não mobilizavam pessoas como o peronismo ou como CFK já fizeram. Seu apoio vinha de diferentes grupos de eleitores. Difícil colocar em números como se dividiam precisamente, mas, em termos gerais, votou em Macri quem era favorável a suas políticas, quem queria uma alternativa a 12 anos de continuidade kirchnerista e quem queria fazer um voto contra Cristina.

Assim contou Nicolás Goscilio, sociólogo, guia de turismo alternativo de Buenos Aires: “O macrismo não é forte como coletivo identitário, é mais vontade de mudar e votar em algo novo do que qualquer outra coisa. Eu conheço gente que não é macrista ou que nem gosta do Macri e que, simplesmente para que não ganhasse o partido de Cristina, votaram no que tinha mais chances de ganhar”. Rebossio concorda: “por um lado, as pessoas o apoiam. Por outro, há quem não esteja contente com ele, mas que diz ‘a outra opção é com Cristina Kirchner e com Cristina eu não quero’”.

A presidente foi responsável por medidas controvérsias. Travou batalha contra o Poder Judiciário e com os meios de comunicação. No caso dos investidores, brigou contra os “abutres”, donos dos hedge funds que não aceitaram a renegociação da dívida proposta por Néstor Kirchner no começo dos anos 2000, e ao mesmo tempo com o FMI, que criticou duramente a política de manipulação de dados econômicos do governo argentino. Com o “cepo cambial” (quando atribuiu uma equivalência fixa entre dólares e pesos, independentemente das flutuações do mercado) abriu as portas para um gigantesco mercado paralelo de dólar, situação que, estima-se, gerou uma perda de U$ 20,2 milhões aos cofres do Estado. Levou a inflação aos 40% (embora o governo não admitisse mais que 10%), estagnou a economia, reduziu o poder de consumo, arrasou com as reservas de dólar e teve dificuldade em conseguir deixar a balança comercial positiva.

Com um negacionismo teimoso e “contabilidade criativa”, Cristina Kirchner viveu (emprestando a expressão de Clovis Rossi) anos de certo autismo político. Negava a inflação, a estagnação econômica, o desemprego e a pobreza. Em junho de 2015, a então presidente chegou a afirmar em discurso para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) que a pobreza na Argentina estava abaixo dos 5% (1% nos casos de extrema pobreza). A declaração era esdrúxula: nem Islândia, República Tcheca ou Dinamarca, referências globais em níveis de baixa pobreza, contavam com cifras tão pequenas.

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Os escândalos pessoais e acerca de seu governo também foram parte importante desse enfado. Cristina está envolvida em processos por fraude contra a administração pública, por associação ilícita na definição de contratos para construção de estradas, por lavagem de dinheiro e em uma investigação por homicídio (caso do AMIA, na Argentina).

Nada disso, no entanto, foi capaz de derrotar definitivamente o kirchnerismo. Pode ser que esteja em linhas de seu fim, mas ainda é difícil saber. Será possível falar do assunto com mais certeza depois de outubro, quando ocorrerão as eleições legislativas, a provação final de Cristina. Para Alejandro Rebossio, a ex-presidente só tem uma bala: se usá-la agora, é porque confia que vai ganhar. Caso vença, tem chances de competir pelo Executivo em 2019, mas “se não sair primeira na Província de Buenos Aires, o kirchnerismo está morto”. Macri já vai fazendo suas apostas simbólicas: “em outubro, o povo votará entre consolidar a mudança ou voltar ao passado”.

Rebeldia dourada

Franco Macri era um típico patriarca europeu de começo de século. Casado há anos, via em um filho homem o protagonista que continuaria a escrever sua história quando fosse preciso. Para ele, melhor que um filho homem, só um primogênito. Apenas um aglomerado de células, Mauricio Macri nem era Mauricio Macri ainda, mas já carregava consigo a primeira expectativa do pai: nascer homem. Em fevereiro de 1959, é a primeira criança do casal Franco e Alicia Villegas, um menino que, ainda sem calças, nascia com os bolsos cheios.

Mauricio tinha no dinheiro a origem e o futuro e, contra isso, nunca lutou, embora tenha querido se distanciar da severidade do pai. Eventualmente quis traçar um caminho que fosse seu, mais distante das expectativas paternas, mas sempre à imagem e à semelhança de sua próspera ancestralidade. Exemplo disso é o sequestro que viveu nos anos 1990, evento que, diz o presidente, mudaria sua vida para sempre. Depois de 12 dias em cativeiro e um resgate de 6 milhões de dólares pagos pelo pai, ao menos uma coisa claramente não havia mudado: sua origem.

Apesar de sua rebeldia dourada, Macri nunca conseguiu se separar do pai por completo, como dizia pretender – difícil dizer se porque não conseguiu ou porque, de verdade, não quis. Apesar da distância que pareceu querer impor entre os dois, ainda restam resíduos dessa antiga história familiar. Ao avaliar seu primeiro ano de governo, por exemplo, Franco disse sobre o filho: “No primeiro ano não poderia ter feito mais nada. Não pôde começar construindo, só arrumando os feitos de governos terríveis […] Com essa ressalva, lhe dou nota 5”. À declaração, Macri respondeu: “Tendo em conta o quão severo é comigo, um 5 [meu] é como um 10 seu”.

A última grande demonstração dessa ligação tumultuada foi o envolvimento de Mauricio Macri nos Panama Papers. Em 11,5 milhões de documentos e em uma base de dados de 2,6 terabytes, os chamados “documentos do Panamá” são do escritório de advocacia Mossack Fonseca e correspondem ao maior vazamento de informações de que se tem conhecimento (maior que o WikiLeaks, em 2010, ou que os segredos entregues por Edward Snowden, em 2013).

Ao envolver 140 políticos de mais de 50 países conectados com empresas offshores em 21 paraísos fiscais diferentes, os Panama Papers prometiam comprometer os grandes da política e da economia mundial. Ninguém ali era peixe pequeno, mas também nada ali era imediatamente prova de um caso ganho, já que trustes e companhias offshore não são ilegais por natureza.

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No caso de Mauricio Macri, seu nome foi apontado em uma conta nas Bahamas, vinculado à Fleg Trading. Indicado como diretor da empresa entre 1998 e 2009, teve que explicar porque não detalhou essas informações em suas declarações de campanha de 2007 e 2015, quando concorreu à prefeitura de Buenos Aires e à presidência, respectivamente. Em sua defesa, Mauricio alegou desde o início não ter participação na empresa e tampouco receber rendas que tivessem essa origem. A história ainda se desenrola na justiça.

Comentários ácidos em declarações e entrevistas à parte, o espaço que existe entre os dois Macris é menor do que se pretende. Néstor Kirchner já dissera com precisão: “Mauricio es Macri” (“Mauricio é Macri”). O que significa que não importa o quanto Mauricio queira (ou diga querer) distanciar-se: pai e filho são e serão envolvidos por um vínculo indissolúvel conquanto os Macri continuem Macri – e, conforme exista a história, isso não há de mudar.

A herança Macri

O peso e o significado de seu sobrenome são, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade do atual presidente. Por um lado, é sobre ele que se assentam as relações de Macri com o empresariado e sua visão liberal de condução do país. Por outro, é o que o associa à soberba da elite e à distância do povo.

Não é incomum que se critique a gestão Macri como um “governo de amigos”. De acordo com o Indec (o IBGE argentino), entre 2015 e 2016, por exemplo, os 10% mais ricos ganharam 6% acima da inflação, enquanto o extrato mais pobre recebeu entradas 14% mais baixas que a inflação. É cercado, além disso, por pessoas de sua confiança que já fazem parte de sua vida a algum tempo. No alto escalão do PRO e de sua gestão encontram-se aqueles que já passaram com ele pela Socma e pelo Boca Juniors, reforçando, para além da amizade pessoal, laços políticos.

Para Alejandro Rebossio, “uma parte do passado de Macri foi em seu favor e outra foi contra. O fato de ele ser empresário ia contra, porque, além de tudo, pertencia a uma família que sempre viveu de negócios que dependiam do Estado”. Por outro lado, “o bom de Macri foi sua questão como presidente do Boca, porque foi um êxito”, “até quem não era do Boca via como o time avançou com Macri”.

Mas antes de comandar o Boca Juniors, um dos maiores times da Argentina, Macri tinha pouco traquejo na vida pública. Típico jovem de elite, estava distante de qualquer comportamento ou hábito que o aproximasse à vida comum. E não haveria de ser diferente: desde os 13 anos participava de viagens de negócios de Franco e, mais velho, chegou a jogar golf com Donald Trump (à época longe de ser a piada política de mau gosto que é hoje). Estudou uma carreira tradicional, formando-se em engenharia civil na Universidades Católica Argentina (UCA), continuando seu trajeto acadêmico em universidades de ponta nos Estados Unidos, como Columbia, em Nova York, e a University of Pennsylvania.

Seu primeiro emprego foi em uma empresa pertencente a um conjunto patrimonial familiar. Como analista, Mauricio Macri entrou no mercado de trabalho através da Sideco Americana S.A., empresa de construção civil que fazia parte do conglomerado bilionário formado por seu pai nos anos 1970. A Sociedade Macri (SOCMA, ou Grupo Macri) foi fundada pelo patriarca da família, Franco, um italiano que começou a construir seu império pouco depois de se mudar para a Argentina, no final dos anos 1940. Conhecida por enriquecer com negócios com o Estado, a SOCMA expandiu em 86% entre 1973 e 1987, sendo imensamente beneficiada pelo regime militar (1976-1983) ao lado de outros proeminentes grupos como Pérez Companc, Bridas, Astra e Soldati.

Macri, premiado, y Cavallo, en 1993.

A extensão de sua relevância não é difícil de compreender. Basta pensar que vêm dos negócios de Franco com a SOCMA duas das três usinas nucleares que a Argentina possui, Atocha I, inaugurada em 1974, e Atocha II, em 2011. Ou, por exemplo, que a primeira empresa de telefonia móvel do país, a CRM-Movicom, foi criação conjunta de Macri com a Motorola, o Citibank e a Bell-South. Ou, ainda, que foi a SOCMA quem controlou os Correios Argentinos por quase 10 anos. Exemplos não faltam.

Ainda que a Argentina fosse vivendo momentos econômicos e políticos conturbados ou perturbadores (quando não os dois ao mesmo tempo), embora o patrimônio Macri pudesse flutuar (como todo patrimônio faz), a movimentação dos negócios da família não deixou de perder a relevância. Nesse sentido, distanciar-se de seu pai, para Mauricio podia até ser uma condição emocional – não interessa: mais importante, é que era uma condição também política.

Sua chegada à presidência do Boca Juniors foi o começo desse percurso. De 1996 a 2007, foi presidente de um dos times mais populares da Argentina. Expandiu a mítica Bombonera, reorganizou as finanças do time e viveu a vitória de 17 títulos, dentre eles quatro Libertadores. Em um país de apaixonados por futebol, onde 40% dos torcedores são boquenses, 12 anos de liderança bem sucedida tiveram um impacto importante.

Vácuo regional

Se o apocalipse decidisse começar não por Nova York, como mostram os filmes, mas na sede do G20, certamente teríamos um problema (para além do fim do mundo, claro). É no encontro destes 20 dos principais líderes globais que está concentrada 85% da economia mundial. Em 2017, a reunião foi na Alemanha de Merkel, onde estrearam alguns chefes de Estado recém-empossados, como Donald Trump, dos Estados Unidos, e Emmanuel Macron, da França.

Se na foto oficial do ano passado Macri ficara jogado no canto esquerdo, esse ano mudou-se para o centro, ao lado de Merkel e do presidente chinês Xi Jinping. Com importância destacada por ser a Argentina a sediar o próximo encontro, Mauricio Macri realizou importantes reuniões bilaterais e chamou atenção enquanto proeminente líder latino-americano.

Com feição europeia, cercado por Trudeau, premiê canadense, de um lado, e Angela Merkel de outro, poderia, para um distraído, passar-se por líder do norte desenvolvido. O momento, inclusive, virou foto e manchete. Sua importância, no entanto, era muito mais simbólica do que objetiva. Macri adquiriu um protagonismo novo muito mais pelo vácuo brasileiro do que por qualquer outra coisa.

Macri, Merkel e Trodeau no G20

Com a crise econômica, política e institucional atingindo o Brasil há pelo menos três anos, o discurso macrista de mudança e abertura comercial conseguiu ocupar uma importância historicamente protagonizada pelo Brasil. Cada vez mais ausente do cenário internacional, o país abriu uma vacância na liderança regional, e o novo presidente argentino com uma agenda de desenvolvimento aproveitou para atrair a atenção e os investimentos necessários para a consecução de seu projeto de governo.

Dizer que a Argentina será o próximo Brasil ainda nestes dois anos e meio que restam de Macri, ou dizer que nos convertemos em uma irremediável República das Bananas é mais do que impreciso, é leviano. Inegável que o Brasil se encontre em uma situação delicada. Isso não muda o fato de sermos um gigante em tamanho, em população e em biodiversidade; de sermos a 9ª maior potência do mundo; de sermos os maiores produtores de café, suco de laranja e cana de açúcar e figurarmos entre os grandes produtores de carne bovina, por exemplo.

A Argentina – que não está nem na lista das 15 potências mundiais, luta para se recompor e afunda em dívida externa – ainda por cima depende do desenvolvimento brasileiro. O Estado argentino reconhece isso. Susana Malcorra, ex-chanceler argentina, disse no início do ano, durante o Council on Foreign Relations, em Nova York, que o desenvolvimento argentino é intimamente vinculado ao desempenho brasileiro. “Negar o fato de que seja o que se passe com o Brasil tem um grande impacto na Argentina seria uma inverdade. [O Brasil] é nosso maior parceiro. Não dá para não sentir o impacto”.

Se o Brasil já foi o país da moda nos anos 2000 com a presidência de Luís Inácio Lula da Silva, com o fim de 12 anos de kirchnerismo e um presidente neoliberal, a Argentina passa a ser forte candidata à posição. Mas Macri, embora líder, é secundário. Com sua figura longilínea e europeizada, marca o remodelamento das relações regionais com seu sorriso gentil e medidas duras de austeridade. Só o tempo vai dizer se esse plano de ação individual e essa forma de enfrentamento direto ao peronismo vai alavancar a Argentina.mauricio_macri-min_crop1489098796226

A crise de Temer

Fazia tempo que os olhos do Brasil não se grudavam tanto nas telas de TVs, celulares e tablets. Quem sabe desde o fim definitivo do Governo Dilma, escândalo algum tomou tamanha proporção quanto deflagrado pelo áudio de Joesley Batista.

Na noite do dia 17 de maio, Lauro Jardim, colunista do Globo (jornal do Grupo Globo de comunicação) publicou às 19h30 um furo com potencial de abalar as já sensíveis) instituições brasileiras. Com uma manchete que dizia “Dono da JBS grava Temer dando aval para compra de silêncio de Cunha”, era a primeira vez que o nome do presidente aparecia em um grande veículo de comunicação com uma acusação tão séria.

Em depoimento à Procuradoria Geral da República, Joesley Batista, um dos donos da JBF, (gigante alimentícia) garantia que tinha áudios que comprovariam o envolvimento de  Michel Temer na compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro. Com áudios gravados no início do ano, o empresário teria provas que comprometeriam outros gigantes da política brasileira, ampliando seu leque com nomes tais quais o do senador e ex-presidenciável Aécio Neves e o ex-ministro Guido Mantega.

Depois da bomba de Jardim, em pouco tempo outros grupos já reproduziam a notícia. Às 19h50, Michel Temer se retirava de reunião em que estava para poder discutir a repercussão da matéria, e, às 20h, Rodrigo Maia encerrava a sessão em curso na Câmara dos Deputados. Pouco depois, deputado da Rede, Alessandro Molon, protocolava o primeiro pedido de Impeachment contra o presidente – um pedido relâmpago, se não redigido na 1h30 entre a divulgação da notícia e sua entrada no Congresso, certamente pronto e guardado em alguma gaveta.

Até altas horas da noite de quarta-feira, 17, o áudio de Joesley ainda não era público (o que significa também que o primeiro pedido de impeachmente contra Temer foi redigido sem o conteúdo da gravação). Sem acesso ao objeto incriminador, as especulações cresciam, e o Planalto se decidia sobre eventual pronunciamento. Às 22h20, a assessoria de imprensa da presidência publicava uma nota de esclarecimento, confirmando que, embora Batista e o presidente houvessem, sim, se encontrado, o peemedebista não agira em desacordo com a lei.

Na manhã do dia 18, as coisas não pareciam muito mais claras. Michel Temer renunciaria?quando o áudio seria revelado? Era o fim do Governo Temer? Ainda não se sabia. O clima de confusão generalizada só fez aumentar quando, em meio a tantas perguntas não respondidas, a Polícia Federal amanheceu cumprindo mandatos de busca e apreensão em imóveis de Aécio Neves (um em Brasília, outro no Rio de Janeiro e o terceiro e Minas Gerais) e em seu gabinete no Senado (além disso, prenderam a irmã do psdebista, Andrea Neves, e Ângelo Goulart Villela, procurador da República suspeito de vazar informações ao grupo JBS).

Pouco tempo depois, às 7h40, Edson Fachin, ministro e relator da Lava Jato no Supremo, determinou o afastamento de Aécio Neves de seu cargo de Senador. A decisão de Fachin decorreu de pedido do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que pedia a prisão do mineiro. O ministro, ainda que tenha negado sua prisão, não restou inerte, autorizando outras demandas de Janot, como o afastamento do deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) de seu cargo.

De acordo com Joesley, Loures seria o intermediário de Temer, responsável por assuntos que envolvessem o governo e a J&F, holding de atuação internacional a qual pertence a JBS. O deputado, inclusive, fora o último a ser visto com uma mala cheia de dinheiro: entregue por Rodrigo Saud (JBS) a Loures, continha R$ 500 mil, pagamento oferecido ao deputado por articular os interesses da JBS no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

Ainda, às 14h daquela agitada quinta-feira o STF (Supremo Tribunal Federal) escrevia mais um capítulo de uma série agitada de eventos. Com base na delação da JBS, o Supremo autorizava a abertura de inquérito contra Michel Temer, suspeito de obstrução de justiça. Cresciam as expectativas acerca de  um possível discurso de Temer.

Em março de 2017, o presidente já havia sido citado em colaboração premiaa, mencionado por Sérgio Machado em sua delação para a Operação Lava Jato. De acordo com o ex-presidente da Transpetro (2003-2014), Temer teria lhe pedido, em 2012, recursos para a campanha de Gabriel Chalita, do PMDB, em sua candidatura à prefeitura de São Paulo. Se em março Janot dissera não poder investigar Temer por fatos ocorridos fora de seu mandato, agora, a estratégia de Joesley colocava o presidente em cheque.

Durante a tarde, Michel Temer quebrou um silêncio de quase 24h e rompeu com a expectativa de renúncia anunciada pelo Globo. De maneira enfática, foi contra a corrente: “Não renunciarei. Repito. Não renunciarei”. Afirmou que não cometeu quaisquer irregularidades, que a gravação feita por Joesley Batista era “clandestina” e que “a investigação pedida pelo Supremo Tribunal Federal será território onde surgirão todas as explicações. E no Supremo, demonstrarei não ter nenhum envolvimento com estes fatos.”

Às 19h daquele dia, o STF liberou os áudios de Joesley. A parte mais enfatizada pela imprensa até então (quando Temer teria respondido “Tem que manter isso, viu?”) supostamente indicava que o presidente concordava que Batista continuasse pagando “mesadas” ao ex-deputado Eduardo Cunha e ao operador Lúcio Funaro, presos pela Lava Jato. O problema gerado então foi o seguinte: essa parte, assim como tantas outras, eram vazias de significado – ou ao menos não carregavam o que lhes havia sido implicado antes.

Diferentemente do que havia sido defendido em um primeiro momento, o áudio por si só não era prova cabal de nada. Continha informações e trazia perguntas, é verdade, mas não correspondia às expectativas. Com muitos trechos inaudíveis e ruídos intermitentes, quando era de fato possível ouvir o diálogo, não havia trecho que revelasse indubitável e cabalmente práticas gravíssimas praticadas pelo presidente.

Nada disso, no entanto, isenta Michel Temer. Em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo na segunda-feira, 22, não é difícil perceber que Temer já pisa sobre ovos podres. Nessa mesma entrevista, quebrou um deles: no contexto da suposta compra de juízes enunciada por Joesley Batista, falou da Operação Carne Fraca como parte da narrativa de justificação. A Operação, no entanto, só seria deflagrada dez dias depois de gravado o áudio.

No dia 19, mais um episódio desta longa série da política brasileira: em sua publicação diária, a Folha divulgou uma matéria afirmando que, segundo perito contratado, o áudio de Joesley e Temer havia sofrido modificações (em breve o Estadão chegaria a mesma conclusão). O que essas alterações haveriam de significar? Que o Ministério Público Federal estaria favorecendo alguma das partes? Que fora enganado? Que era incompetente? Que outras hipóteses estariam em jogo?

Ao ler a parte de “Análise de Coerência Perceptiva” relativa à gravação no inquérito do MPF (Ministério Público Federal), o “deslize” parece se tratar de descaso, quando não incompetência. No documento, o MPF admite que não tenham sido usados aparelhos especializados para a análise das gravações. Em três breves parágrafos, o que afirma é algo do tipo: “Nós ouvimos o áudio, ele faz sentido, e, por hora, isso nos basta”. Por que, então, divulgar o áudio de maneira tão precipitada? É difícil dizer, mas as hipóteses permanecem: é questão de incompetência ou de desvio de finalidade. 

Dependendo de como correrem as próximas perícias sobre a gravação, seu conteúdo poderá continuar fazendo parte do inquérito que integra, mas também poderá ser descartado. Nesse momento, a utilizacão do áudio tal qual foi feita – com descaso e pouca responsabilidade – pode gerar dúvidas que auxiliam justamente aqueles que se busca combater.

Com a publicação da matéria da Folha o dia estava só começando. Às 13h, Edson Fachin tornou públicos os vídeos e documentos da delação da JBS prestada à Procuradoria Geral da República. Pouco depois, soube-se que Rodrigo Janot, no inquérito aberto pelo STF na tarde do dia anterior, apontava indícios de que Michel Temer seria responsável pelos crimes de obstrução de Justiça, participação de organização criminosa e corrupção passiva. Meio a manchetes bombásticas marcadas pelo fim comum “…, diz delator”, o advogado de Temer manifesta-se dizendo que o áudio de Joesley Batista com o presidente parecia resultado de uma armação: “parece que foi coisa preparada […] para provocar [o presidente] e fazer uma delação premiada”; “ele lançou uma infâmia sobre o presidente e foi embora do país” (1).

No sábado, dia 20, a defesa de Michel Temer protocolou perante o Supremo Tribunal Federal um pedido de suspensão do inquérito recém aberto contra o presidente. Devido às alegações de cortes na gravação e Joesley, a defesa pediu que fosse realizada uma perícia do áudio, porque “tanto para a acusação, quanto para a defesa, (…) é necessário ter-se certeza da fidelidade de sua degravação. Matérias jornalísticas nos dão conta da possibilidade do áudio respectivo ter sido editado”. Seu advogado, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (1) também afirma que os elementos ressaltados na gravação são inconclusivos, havendo “mera interpretação por parte do órgão acusador, sem nenhum apoio fático”.

Na tarde do mesmo dia, Temer fez seu segundo pronunciamento desde o início da crise. Em um discurso mais longo do que o proferido no dia 18, afirmou que a gravação de Joesley, não bastasse ter sido feita “com objetivos nitidamente subterrâneos”, também fora inserida ao inquérito sem que houvesse “a devida e adequada averiguação”. Criticou as conclusões auferidas ao áudio, negando sua participação na compra do silêncio de Eduardo Cunha,  bem como “o autor do grampo” que está “livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York”, enquanto o Brasil “vive dias de incerteza”.

Depois de contratada perícia própria (o perito, Ricardo Molina), a defesa de Michel Temer disse que desistia do pedido de suspensão do inquérito. De acordo com um dos advogados da defesa, Gustavo Guedes,  “esse áudio, segundo as perícias, é na, nossa avaliação, imprestável”; “já que nós temos agora o resultado de um trabalho que a gente confia, nós queremos que esse inquérito se ultime o mais rapidamente possível”.

O domingo do dia 21 tampouco foi dia de descanso. Começou com o Conselho Federal da OAB decidindo que iriam pedir o impeachment de Temer por vias oficiais. De acordo com o presidente da Ordem, Claudio Lamachia, Temer teria cometido crime de prevaricação ao tomar conhecimento dos crimes confessados por Joesley Batista (“compra” de juízes e membros do Ministério Público) em sua conversa e não ter tomado as devidas providências. A OAB deve protocolar no dia 25, quinta-feira, o 14o pedido de impeachment contra o presidente.

Durante a tarde, Michel Temer chamou políticos ao Palácio da Alvorada para discutir a crise de seu governo (desta vez, sem feijoada). O presidente falou por aproximadamente 40 minutos, mas foi Rodrigo Maia, em um discurso breve, quem disse coisas mais importantes. Declarou que não “deixará [Temer] em nenhum minuto até o final do mandato em 31 de dezembro de 2018”, mostrando uma posição certamente confortável ao presidente. Tudo indica – e sempre indicou – que Maia não é nenhum Cunha nem em ousadia, nem em perspicácia. Resta saber quanto tempo sustentará esta posição e, caso sustente, que outra via aqueles que já se afastam de Temer procurarão tomar.

Entre os dias 22, 23 e 24 a crise só se aprofundava. Renan Calheiros passava mensagens dúbias sobre a permanência de Temer, sutilmente sugerindo uma renúncia. Romero Jucá afirmava não haver motivos que justificassem a saída do presidente e que ele continuaria seu mandato até o fim. A mala de R$ 500 mil desaparecida nas mãos de Loures reaparecia. Michel Temer assinava decreto que permitia as Forças Armadas realizarem o patrulhamento do Distrito Federal até o dia 31 de maio enquanto policiais protagonizavam cenas dignas de Venezuela em Brasília e no Rio de Janeiro.

Enquanto Temer segue decidido a enfrentar a delação da JBS, seus aliados parecem tentar coordenar esforços. A verdade, no entanto, é que isso é apenas o que repousa na superfície. A cronologia da crise do governo de Michel Temer só demonstra que há muito em jogo e que certamente nenhuma análise até agora publicada corresponde ao que vem sido travado nos bastidores.

É provável que nem os próprios agentes dessa crise compreendam o que se passa. As articulações são inúmeras e certamente envolvem grandes motivos (escusos? Inidôneos? Difícil saber). As posições díspares da grande mídia ao reportar fatos e atribuir-lhes tons tão distintos são um indício; as movimentações acerca de Henrique Meirelles são outro; a liberação da delação da JBS em hora estratégica e por um veículo do Grupo Globo, mais um.

Muito diferente do que ocorreu com Dilma, hoje vivemos uma crise institucional de outro caráter. As esquisitices que estão construindo a história ainda não apontam para compreensões claras do que está em curso e muito menos para caminhos futuros.

Com toda a responsabilidade que se exige de cidadãos de uma democracia recente, é imprescindível acompanhar os acontecimentos com cuidado e lembrar: não se pode confiar na análise da superfície de um rio desconhecido. Nunca se sabe que tipo de pedra se encontra logo abaixo.


(1)  Antônio Cláudio Mariz de Oliveira era amigo de Michel Temer, antes de representá-lo nos eventos recentes. O criminalista fora cotado ao Ministério da Justiça enquanto o atual presidente ainda era vice, mas saíra de cogitação depois de criticar aspectos centrais do modus operandi da Operação Lava Jato. Tempos depois, com Temer presidente, o advogado voltou a ser considerado, desta vez na lista de possíveis substitutos a Alexandre de Moraes, cotado para o STF no lugar do então recém-falecido Teori Zavascki.

 

O prefeito faz-de-conta

Quem diria que brincar de “faz-de-conta” seria tão real ainda na vida adulta. O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., que se vestiu de gari no primeiro dia de mandato, tem impactado a forma com a qual os paulistanos o veem através de estratégias brutalmente simples – e brincar de fantasia é uma delas.

Seu êxito em consagrar-se enquanto figura pública de respeito não repousa nas suas habilidades enquanto gestor (ao menos não por hora), mas, sim, nos gestos simbólicos que estampam jornais e capas de revistas e que rendem longas discussões na mesa do bar, no ponto do ônibus e no banco do táxi. Doria não faz mais que ampliar, na voz do funcionário público que representa, o pensamento do paulistano médio: ao reiterar o discurso liberal e meritocrático, fala o que desejam ouvir e reforça uma identificação através de valores comuns.

Quando Doria veste-se de gari, jardineiro, pedreiro ou pintor, não está se dedicando a melhoras objetivas na cidade. Diferentemente do que muito se tem dito, quando aparece lado a lado com aqueles trabalhadores, não está lhes prestando respeito (fosse esse o caso, tomaria medidas que lhes seriam benéficas com ou sem a presença das câmeras), nem trabalhando em direção a uma São Paulo menos desigual, suja ou congestionada. Ainda assim, mantém-se como um prefeito com índices de aprovação extremamente positivos – é aqui, portanto, que entra o faz de conta.

Em SP, painel de Kobra na 23 de Maio amanhece pichadoComo parte do Cidade Linda, Doria causou polêmica ao apagar, arbitrariamente e sem aviso, grafites e pichações, apostando no cinza como estratégia de embelezamento da cidade. Na disputa infantil travada por Doria contra pichadores e grafiteiros, quanto dinheiro público foi dedicado à brincadeira infantil de “pinta e repinta” nos muros da capital?

Quando Fernando Haddad iniciou a pintura das ciclofaixas – muitas delas bastante mal planejadas, é verdade – a reação negativa veio a galope. O ex-prefeito foi duramente criticado pelo excesso de dinheiro público destinado à pintura de quilômetros de faixas. Quando Doria, por outro lado, insistia em apagar uma, outra e outra vez os muros desenhados e redesenhados em protesto, os mesmos que se preocuparam com o preço das faixas para bicicleta não pareceram importar-se com o gasto destinado a esse jogo infantil de tira e põe.

Por quê?

Se no caso das ciclofaixas tratava-se de um empreendimento de mobilidade urbana, é difícil ver onde a pintura cinza se encaixaria como contribuição pública, sobretudo se considerarmos que grafites e pichações são um dos principais atrativos turísticos da cidade de São Paulo. Por incrível que pareça, Doria sai ileso de situações como essas, pois as mensagens que continua transmitindo são muito mais marcantes do que seu duvidoso jeito de governar. Quando se veste de gari, jardineiro, pedreiro, pintor, ciclista ou daquilo que a agenda do dia pedir, aproxima-se dos eleitores e dos possíveis eleitores ao pintar-se como um homem humilde que faz acontecer e não tem medo do trabalho.

Em suas andanças à fantasia, reforça o antigo e popular discurso de que só o trabalho dignifica. Não à toa, no recente vídeo publicado pelo perfil do Facebook do prefeito, no dia 26 de abril, Doria, ao referir-se à Greve Geral, fez um apelo aos paulistanos: “dia 28 é dia de trabalho. Só quem não quer trabalhar é que vai fazer greve […] aqui, ao contrário de quem não quer trabalhar, a gente quer produzir”. Deslegitimando o direito constitucional à greve, encontrou a força de seu discurso no respaldo popular ao falar aquilo que sempre se diz nos pontos de ônibus, táxis e no meio do trânsito em dia de greve. Em outras palavras, reforçou o sentimento comum de que “essas coisas só atrapalham o dia da gente…”

A diferença, no caso do vídeo, é que o discurso sai das conversas de botequim e vai para a boca do representante da maior cidade da América Latina.

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Os relações públicas de Doria merecem uma salva de palmas. Com 43% de aprovação e nem cinco meses de mandato, fizeram com que Doria chegasse a ser popularmente cotado para como presidenciável de 2018. Nem eles nem o prefeito, no entanto, inventaram da roda. Muito antes de Doria, Jânio Quadros já comia sanduíches com os sapatos trocados e seu broche de vassourinha, e Lula posava ao lado de metalúrgicos e petroleiros.

Acontece que Jânio era um deboche, e Lula o presidente que terminou seu governo com os maiores índices de aprovação da história brasileira. E Doria? Em seu caso, ser patético é o preço que se paga por uma estratégia, por hora, muito bem sucedida – prova de que sua brincadeira de faz de conta não é vã.